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O Fundamento Inconsciente da Fé.

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“Não permanecer aqui,
t
ampouco ali, Mas nas ondulações das necessidades da alma.
Tal como é nosso inconsciente, A realização transcendente
favorece a conectividade. Traz o humano ao seu
primitivo, Sua predisposição imaginária
ao real, Por fim,
Sua individuação como
concretização.” (Isabela Maria Corrêa Condé) 

O FUNDAMENTO INCONSCIENTE DA FÉ. 

Dia após dia vemos a necessidade da criação de um elo entre a fé, a razão e as ciências. Tudo isso para que o ser humano seja atendido em suas diversas faces de necessidades: o que seja corpo e alma. Assim, dizemos que a teologia sempre se coloca ao dispor da psicologia e vice versa, uma vez que ambas buscam pelo aprimoramento do homem e suas necessidades. A Psicologia Analítica, por sua vez, compreende a  forma como a religião integra o inconsciente até a fundamentação de nossa consciência, explicando-se através de inúmeras contribuições, como as explicações referentes à ativação arquetípica e imagens oníricas.

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Surgem também as questões de interações sociais. O homem é esse ser incrível capaz de precisar e ser precisado dessas interações. A alma favorece a criação desse elo, pois ela se constitui de modo interior e se lança ao exterior. Percebe-se, todavia, a necessidade de aprimorar esse constituinte humano que seja alma e sua integração ao que te transcende, ao metafísico. O texto indica-nos pistas de como essa formulação se dá e, ao fim, como se estrutura a personalidade devidamente fundamentada sobre suas questões de fé. Toda jornada precisa de uma luz e na caminhada de vida não podia ser diferente. Busca-se por luz através da simbologia profunda que a religião nos traz desde os nossos primórdios e que é capaz de fazer surgir o clarão em nossa consciência.

“O silêncio é a porta que o nosso ouvido interior abre para se poder escutar a maravilhosa melodia da alma. Quando não dançamos apenas ao som do assobio dos outros é sinal de que estamos em sintonia conosco, em sintonia com a música suave que o nosso coração criou. Descobre esta melodia interior. Procura captar as notas do silêncio. Mantém-te atento a tudo o que desponta em ti.” (Anselm Grün)

A fé se manifesta em obras.

Falar de fé é também falar de nossas ações. São Paulo rejeita as obras sem fé, já Tiago, rejeita a fé sem obras. Quem, afinal, está correto? Penso que sejam ambos.

Nossas obras sem fé, produzidas com frieza, não são capazes de tocar na alma do outro de forma a aquecê-la e produzir novos frutos, através da audácia da caridade. No entanto, também nossa fé sem obras se torna morta, uma vez que não nos propiciamos sair de nosso cômodo para ir ao encontro do outro. Partindo dessas duas visões separadas, vamos caminhando com o coração congelado, sem atingir o outro de modo eficiente. Negamos nossa condição humana por negar o outro. Construímos automatizações dos processos sociais e afetivos. Não damos valor à vida humana. Formamos guerra. Somos capazes de negligenciar até mesmo os indefesos. Produzimos ideologia e nos descaracterizamos como humanos! Perda, grande perda do humano em sua totalidade!

Lembremo-nos também o que nos advertiu grandes pessoas como São Vicente de Paulo, “a verdadeira caridade é aquela que fecham-se os olhos e abrem-se os braços”, e São Francisco de Assis, “evangelize sempre, se necessário for, utilize palavras”. Fico a imaginar o quão sábios foram nas deficiências de seus tempos, mas calçaram as sandálias da caridade de forma a percorrerem incansavelmente as vilas das pobrezas, espiritual e material. Sem dúvidas, servem-nos de inspiração para nosso tempo. São visionários. Não estão obsoletos em seus pensamentos. Ao contrário, a humanidade grita em suas dores e mazelas de todos os âmbitos tais quais daquela época que Vicente e Francisco vivenciaram.

Toda mazela é um convite para olharmos ao nosso interior. Não cabe a nós julgamento externo, mas mudança interna. Mudança irradiada por nosso ardor missionário capaz de ir ao encontro do outro em qualquer situação, mesmo quando nos parece ser noite ou dia na alma.

Quando não nos voltamos à comunhão fraterna entre todos os povos, produzimos o individualismo. Grande esterilidade! Buscamos cada vez mais por nós mesmos. Esquecemo-nos de que só estamos vivos, porque dependemos de vários.

A cultura do descartável, a que tanto Zygmunt Bauman1 nos informou, nunca esteve tão próxima. O mundo prestes a sobrecair em grandes Guerras Mundiais. Conflitos por religiões, capital e culturas, em que novamente a cobiça e a vaidade norteiam a fragilidade humana.

A transferência entre a Psicologia e a Teologia.

(Clique Aqui para ler a respeito da relação de Carl Jung com Deus).

Dado o caminho para uma vida de oração devidamente fundamentada, voltamos o nosso olhar para o estudo da Psicologia. Não basta apenas falar que a fé em determinada crença é fundamental ao ser humano. É necessário, todavia, que mostremos a caminhada por completo, retida de profundo significado. Então, quando se carrega de significados consistentes, podemos atingir o nível mais profundo de nossa psique. Saímos da superficialidade da consciência e vamos para seu nível inconsciente. Trata-se de um trabalho mais detalhado. Carrega-se minuciosamente uma ligação entre o que seja de importância coletiva e sua integração ao pessoal. Só assim é possível estabelecer o diálogo com a formação da personalidade humana. A oração, em seu nível de significância definida, possibilita entrarmos com maior facilidade nesse diálogo. Não se trata apenas de uma simples questão de fé. Rememora-se a toda a formação da pessoa humana, englobando todos seus níveis, de corpo e mente. Também assim forma a concretude humana, pois auxilia no modo como as pessoas vão aprendendo a dar o devido sentido para suas jornadas de vida. Impede que essas jornadas nasçam de maneira vaga, sem perspectivas.

Por outro lado, encontram-se os estudos da comparação de pessoas que são conectadas interiormente consigo mesmas e pessoas que buscam, a qualquer custo, por respostas prontas. Percebe-se então, a importância do hábito de entrar em contato com fatores transcendentes à alma. Favorece que estejamos ligados a nossa própria intuição consolidada para que possamos fornecer formas efetivas ao meio a que nos inserimos. Nota-se também a constante capacidade de que as pessoas interiorizadas têm de se estabelecer metas com maior facilidade e objetividade, sem se perderem constantemente. Isso torna a vida mais leve e com menor possibilidade de equívocos infrutíferos, ou seja, erros que não possibilitam a capacidade de aprendizagem e levam continuamente à frustração.

Jung considera a função religiosa como uma atividade espontânea da alma, que se origina de uma realidade especificamente humana2. Religião é um termo latino (Religare) que identifica a ligação que fazemos com um estado superior ao nosso, uma relação transcendente.  Desse modo, é influenciado por nossos pensamentos, emoções e ações a partir dos conteúdos do inconsciente coletivo, o que favorece para que sempre estejamos sobre necessidade de entrar em contato com tal estado da alma, sendo formulado por uma tendência inata aos humanos.

Outro aspecto importante para o crescimento pessoal e o direcionamento do nível inconsciente para emergência na consciência é a forma como deixamos livres nossos processos mentais. Assim, essa tomada de livres acessos aos pensamentos é favorecida através da oração, uma vez que se alcança nosso aspecto desarmado. Tornamo-nos criaturas humildes e frágeis perante as construções nas orações. A cura, ou até mesmo o processo de individuação, vem exatamente de nosso lado desarmado, lá onde somos bobos e vulneráveis3. Aproximamos, no entanto, às nossas próprias fragilidades. Mais do que se aproximar de tal estado, é trabalhá-los para perfumar a alma. Necessário, então, é ficarmos atentos ao que mais está em falha nas nossas concretudes humanas e, sobretudo, termos a coragem de enfrentar nossas sombras e aproximar-nos de nossos complexos. Ainda que não seja tarefa fácil adentrar aos castelos interiores, é valiosa a caminhada e a plenitude com que se caminha e chega ao destino. Resta-nos a sobriedade.

Qual a relação da religião com o processo de individuação?

Em uma relação com o humano e o divino, encontramos o formato de nossas integridades. O encontro humano é difícil, porque conduz a uma experiência de sofrimento que nos causa renúncia ao seu próprio ente para ir ao outro. Contudo, na experiência religiosa, ao entrarmos na centralização divina, também entramos em comunhão com o que seja denominado sagrado e possibilitamos uma via mais suave. Damos chance ao nosso próprio estado e, ao mesmo tempo, buscamos entrar em comunhão com Deus. É claro que não podemos cair por certo afrouxamento, pois nos traz o risco de sermos tendenciosos apenas aos nossos golpes dos complexos e suas fugas. Como consequência, estamos mais aptos para as relações humanas. A concretude divina nos possibilita a essa realidade uma vez que nos faz conhecer e compreender o real significado de ambos os lados, tanto o nosso quanto o do outro. Logo, temos o encontro humano mais dotado de perfeição, fruto da conexão interior.

A vida também é feita de silêncios e recolhimentos. “Muito antes de existir a psicologia ou o aconselhamento como atualmente, muito antes de termos sido instruídos a ‘ouvir com um terceiro ouvido’ já existia o ouvir contemplativo, uma percepção passiva daquilo que está à nossa frente” 4. Assim, encontra-se o nosso interior ou, ao menos, cria-se uma proximidade com o modelo de nosso inconsciente. Na análise, por exemplo, é quando provamos desse difícil encontro, uma vez que conduzimos uma experiência sofrida cuja loucura resulta em esgotar nossas fontes puramente humanas. A alma humana, por sua vez, vai além de seus aspectos simplesmente simbólicos. Ela é capaz também de nos trazer ao sentido enraizado e ao envolvimento à vida, transformar acontecimentos em experiências e se formular através de uma implicação religiosa. Daí surge a necessidade humana de se reter nas dinâmicas de silêncios e planos contemplativos, para só então relacionar a conexão interior com a exterior, a humanidade.

Se por um lado reconhecemos que temos a manifestação  inconsciente dessa alma através de seus recônditos interiores, por outro lado tem-se a importância de reconhecermos as frequentes perdas de almas ao nosso redor e, consequentemente, a perda de vidas humanas. Fruto do nosso tempo, sempre fraquejamos na missão de querer controlar todas as coisas. Fugimos de nossos próprios algozes, e buscamos nas facilidades e modernidades aquilo que o primitivo nos possibilita eficientemente: a cura através do interior. No entanto, novamente findados neste tempo, buscamos primeiro por uma incansável cura que, diante da frustração, adoece-se cada vez mais. Aí é que nos deparamos com os constantes “vazios interiores”, neuroses e até mesmo as psicopatologias. Acontece que estamos ficando desacostumados a entrar no confronto com o que assola parte da psique, nossos complexos e sombras, culminando ao bloqueio da outra parte, a consciência.

Busca-se, então, pela compensação de determinada perda. Na contemporaneidade, o sentido tem-se esvaído e o que antes nos servia como canalizadores das inúmeras energias psíquicas, agora encontra apenas um modelo de libido a ser seguido, gerando vícios e procurando incansável e insatisfatoriamente por novos meios. É verdade que nossas aspirações futuras têm a capacidade de nortear nosso presente, mas também é válido recordar do equilíbrio a que tanto Jung nos propunha em seu princípio teleológico. Isto é, produzimos a nossa história presente de acordo com o constante ‘vir a ser’, no entanto, precisamos estar em consonância com o que já experienciamos. Logo, temos a relação estabelecida com os diversos níveis da psique: o ego em sua dimensão consciente, o coletivo e o pessoal, nos níveis inconscientes. Cada qual com seu valor, mas juntos formando a totalidade humana.

Caminhamos até a formação da personalidade. Esse processo de suma importância se dá por meio do equilíbrio de nossos diversos modelos de introversão e extroversão. A saber, para se chegar ao eficiente desenvolvimento da extroversão, é necessário que a introversão esteja em seu fundamentado sentido. Assim, pode-se citar que as atitudes contemplativas auxiliam no processo da integração como maneira de nos lançarmos para dentro de nós mesmos, a criação da jornada de interiorização. Ressalto ainda a relevância do papel da alma. Grande importância é a inclusão da alma desde o início do processo. Ao contrário, pois, ela não poderá surgir no final e isso já é a perda de parte do humano, a sua essência. Uma vez que perdemos a alma, perdemos também a capacidade sensível e metafísica do homem.

Por fim, cabe-se o lugar da religião. Aquela capaz de ligar a alma ao corpo, formando o humano. Formamos, não apenas uma tomada de simbologias estéreis, mas frutuosas compreensões acerca do humano e sua ligação com o que o é capaz de transcender. Cria-se a humildade humana cuja função é fazer a interdependência das relações e suas trocas  de valores e conhecimentos, que nos advém de instâncias passadas, desde nossos primórdios. Não obsoleta, a própria inconsciência nos favorece que cheguemos a alcançar o delinear para entrarmos em comunhão com o sagrado, o que, em forma de um processo autônomo, promove nosso desenvolvimento de maneira eficaz e natural. Percorrida essa grande jornada, chegamos ao ponto central de tornar possível que a Personalidade humana tome seu corpo, formulando, até mesmo, o processo de individuação do paciente.

 

Referências:

 Amatuzzi, Mauro Martins. Psicologia e Espiritualidade – São Paulo: Paulus, 2005;

Francisco, Papa. Evangelii Gaudium – Vaticano, Roma: Libreria Editrice Vaticana, 2013.

Hillman, James. Uma busca interior em psicologia e religião – São Paulo: Paulus, 1985. – (Coleção Amor e Psique);

 Thibaudier, Viviane. Jung, Médico da alma – São Paulo: Paulus, 2014. – (Coleção Amor e Psique).

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