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Jung e Deus, reflexões sobre suas crenças

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Antes de iniciar com esse trabalho, vale salientar, que postei um pequeno fragmento deste, nos grupos de psicologia Junguiana, e Psicanalise que participo, e fiquei pasmo com a extrema surpresa ao verificar o espanto dos leitores acerca da intimidade do Prof. Jung com os assuntos de Deus.

Que para ele era tão suave, leve, natural.

Mas, prossigamos…

Falando dessa intimidade de Jung com Deus – Ou melhor, ao Deus de sua compreensão, afinal há tantos deuses (materiais, físicos, humanos, acadêmicos e até espirituais).

Uma das citações as mais famosas de C. G. Jung televisionadas no programa Face to Face da BBC veio depois que ele foi perguntado se ele acreditava em Deus.

Ele respondeu: “Eu não preciso de acreditar, eu sei” (Jung, 1959a, p. 428).

Sua resposta causou algum furor na época e, nas décadas seguintes, ele foi citado por muitos – como Richard Dawkins, que o cita como um exemplo de fé cega no seu livro Deus: Um delírio (Dawkins 2006, p 51).

“Jung imediatamente lamentou sua resposta – por causa de sua controversa, confusão, ou a natureza ambígua (1959b Jung).

Embora a entrevista Face to Face possa parecer inofensiva para os padrões modernos, era um programa de televisão pioneiro.

John Freeman usava técnicas inteligentes para desmascarar as figuras públicas e revelar a pessoa privada por baixo (Freeman 1989, pp. 12-13).

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O impacto da técnica de Freeman em Jung pode ser visto nos primeiros poucos minutos da entrevista.

Em quatro ocasiões, Jung respondeu com frases como “isso é difícil dizer” e / ou após uma longa pausa.

Jung também foi pego de surpresa quando Freeman trocou rapidamente da infância de Jung (perguntando se ele foi criado para acreditar em Deus) até os dias atuais (perguntando se ele acreditava em Deus agora). Jung reconheceu isso após a entrevista:

“Sr. Freeman à sua maneira característica disparou a pergunta… para mim de uma forma um tanto surpreendente, de modo que eu estava perplexo e tinha que dizer a próxima coisa que veio à minha mente”. (Jung 1959b)

No entanto, o interrogatório de Freeman tinha funcionado como pretendido. O que veio à mente de Jung não era uma resposta singular, mas exatamente a mesma resposta que Jung tinha dado em entrevista a um jornal, quatro anos antes:

“Tudo o que eu aprendi me levou passo a passo para uma convicção inabalável da existência de Deus. Eu só acredito no que eu sei. E que elimina acreditar. Portanto, eu não tomo a sua existência na crença – Eu sei que ele existe”. (Sands 1955, p 6).

Esta não foi uma “fé cega”, como Dawkins argumentou, mas (de acordo com Jung) uma certeza que é baseada em evidências. Sua prática como psicoterapeuta e sua pesquisa mitológica o haviam convencido da existência de Deus.

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Então por que Jung ficou incomodado com a sua resposta?

Jung não lamentou a resposta que ele deu, ele lamentou os equívocos inevitáveis que resultariam. Isso aconteceu porque sua resposta foi muito curta e os espectadores estavam trabalhando em um conjunto diferente de suposições que ele.

Após a entrevista, Jung expressou preocupação sobre a maioria das pessoas ter pensado que “a verdade é simples e pode ser expressa por uma frase curta” (Jung 1959c).

Na opinião de Jung, a verdade sobre Deus é complexa porque Deus é um mistério cuja natureza está além da compreensão humana.

Na tentativa de compreender Deus, cada um de nós cria nossa própria imagem dele – e a imagem nunca é precisa. Jung reconheceu isto sobre a sua própria imagem de Deus:

“O que quer que eu perceba de fora ou de dentro é uma representação ou imagem”… Causada, como eu com ou sem razão suponho, por um objeto ‘real’ correspondente. Mas eu tenho que admitir que a minha subjetiva só é grosso modo idêntica ao objeto… nossas imagens são, em regra, de alguma coisa… A imagem-Deus é a expressão de uma experiência subjacente de algo que não posso alcançar por meios intelectuais…” (Jung, 1959c).

Em outra carta, Jung deixa claro que ele teria dado uma resposta diferente se tivesse sido perguntado se ele concordava com determinada imagem de qualquer pessoa de Deus (Jung 1959b).

Devido à natureza misteriosa e incompreensível de Deus, nenhuma imagem de Deus jamais será adequada, portanto, ele afirmou a inadequação de todas as imagens de Deus, incluindo a sua própria.

O que Jung deveria ter dito?

Jung foi muitas vezes crítico dos teólogos cristãos por não reconhecerem a diferença entre a sua própria imagem de Deus e a realidade misteriosa de Deus (por exemplo, ver Jung 1955).

A resposta de Jung à pergunta de Freeman jogou mais lenha na fogueira. Permitiu que as pessoas pensassem que Jung estava falando sobre a mesma imagem de Deus delas.

O que Jung tentou fazer em suas cartas após a entrevista foi reparar alguns dos danos. Ele confirmou sua afirmação de que ele estava convencido de que há algo lá, mas também disse que nenhum de nós sabia o que está lá. Na entrevista, ele teria sido melhor compreendido se tivesse reconhecido que há algo muito real e misterioso, que todos nós chamamos de Deus, mas as imagens de Deus que temos são diferentes e inadequadas.

 Implicações práticas

O argumento de Jung, em suas cartas pós-entrevista, pode ser resumido dizendo que Deus é antes de tudo um mistério.

Este passa a ser o primeiro princípio da Igreja Ortodoxa (Ware 1979, p. 11), mas Jung não estava discutindo uma conversão à Ortodoxia.

Em vez disso, ele estava sugerindo reconhecer que quaisquer e todas as imagens de Deus são sempre diferentes da verdadeira natureza de Deus.

Quando percebemos esse fato, então, na visão de Jung, demos um pequeno, prático, mas significativo passo em frente no nosso desenvolvimento espiritual.

E pra encerrar – 2 santuários para Jung:

 BOLLINGEN

“Em Bollingen, mergulho no silêncio […] Aqui se atenua o tormento de criar; aqui, criação e jogo se aproximam. Na minha torre, em Bollingen, vive-se como há séculos.” Jung, em Memórias, Sonhos, Reflexões

KUSNACHT

Há um conhecido provérbio coligido por Desiderius Erasmus, também chamado Erasmo de Rotterdam, um clérigo agostiniano holandês, um dos mais notáveis e influentes humanistas da Renascença e que teve papel importante na revitalização do Cristianismo bem como na revalorização dos textos gregos e latinos clássicos, que assim se enunciava:

“Vocatus atque non vocatus Deus aderit” traduzido como: “Evocado ou não, Deus está presente”.

Este pensamento foi extraído por Jung do Collectanea Adagiorum, uma coleção de provérbios e sentenças de autores antigos gregos e latinos, obra de juventude de Erasmo, publicada exatamente em 1500 e que teve uma 2º edição ampliada em 1508.

Este provérbio deve encerrar grande importância e significado para Jung, pois foi esculpido, em sua forma latina, no frontispício de sua casa em Küsnacht, sobre a porta de entrada, como também irá se eternizar na lápide, junto a outras duas inscrições em sua tumba no cemitério protestante da Zurique.

As duas primeiras inscrições foram extraídas da 1º epístola de S.Paulo aos Coríntios (1 COR 15:47), também em sua forma latina; a 1º verticalmente à esquerda “Secundos homo de caelo caelestis” e a 2º, no lado oposto, “Primus homo de terra terrenus”.

O provérbio sobre a presença de Deus está dividido em duas partes, numa faixa horizontal superior e outra inferior.

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Referências

Dawkins, R. (2006), The God Delusion, (London: Bantam Press)

Freeman, J. (1989), Face to Face with John Freeman, (London: BBC Books)

Jung, C.G. (1955), Letter to Paster Walter Bernet in C.G. Jung Letters, Volume 2, 1951-1961, edited by Gerhard Adler, (London: Routledge and Kegan Paul), pp. 257-64

Jung, C.G. (1959a), The Face to Face Interview in C.G. Jung Speaking: Interviews and Encounters, (Princeton: Bollingen Paperbacks, 1977), pp. 424-439

Jung, C.G. (1959b), Letter to M. Leonard in C.G. Jung Letters, Volume 2, 1951-1961, edited by Gerhard Adler, (London: Routledge and Kegan Paul), pp. 525-6

Jung, C.G. (1959c), Letter to Valentine Brooke in C.G. Jung Letters, Volume 2, 1951-1961, edited by Gerhard Adler, (London: Routledge and Kegan Paul), pp. 520-3

Sands, F. (1955), Men, Women and God: An interview with Frederick Sands – Part 5: I believe in God (Daily Mail) in Heisig, J.W. (1979), Imago Dei: A Study of C.G. Jung’s Psychology of Religion, (London: Associated University Presses), p. 90

Ware, K. (1979), The Orthodox Way, (New York: St Vladimir’s Seminary Press)

Steve Myers

Le musée imaginaire de Carl Gustav Jung, Christian Gaillard, Editions Stock, 1998

Colletanea Adagiorum, Desiderius Erasmus, 1500/1508

Catholic Encyclopedia, Vol.5, 1909, Robert Appleton Company, Online Edition, 1999, Kevin Knight

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito interessante. E o quanto essas questões podem contribuir no crescimento do paciente em terapia, afinal as pessoas tem jogado o espiritual, sua fé fora em função do racional….não existem respostas simples..Às vezes é se jogar no mistério, sem preocupar em entender…abs

  2. Será que Jung não aceitaria a seguinte paráfrase em relação à sua afirmação: “Eu não preciso acreditar [em Deus], eu sei.”, dizendo. Equivale, vamos assim dizer, afirmar: Eu não acredito no meu Inconsciente, eu sei. Ou seja, meu percebido e gradualmente conhecível Inconsciente – e o Inconsciente de cada pessoa – é o infinitamente mais desconhecido ainda em mim, em cada um de nós. O que realmente sabemos sobre a nossa integral, plena, vasta, incomensurável, Natureza BioPsicoEspiritual? Não é o próprio Jung que cita um pensamento de Santo Agostinho, que diz: “Deus é um circulo infinito cujo centro está em toda parte e cuja linha de sua circunferência não está em lugar nenhum.” Proporciona-se uma imagem de Deus, para loga a suprimi-la. Deus não se restringe a geometrias percebidas ou traçadas pelo ser humano, e nem por palavras concebidas pelo ser humano. Pelo menos não por enquanto. Não é simples-sábio perceber e SABER desse Deus? O Inconsciente humano autorizado ou não revela Deus… A própria grandiosa e surpreendente contribuição que Jung proporcionou à Humanidade ainda nos é um segredo “TRANCADO A SETE CHAVES…). e por aí afora… E agora?!

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