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Héstia, Deusa da Lareira e do Lar

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Vamos falar de Héstia, esta deusa tão pouco conhecida e que, no entanto nos constitui em alto grau. Vejamos:

Héstia é a deusa da lareira. Isso significa que ela está no centro de cada casa da Grécia Antiga. Aliás, o que faz de uma casa um lar é justamente a presença de Héstia.

A lareira sempre está no centro, e portanto é associada ao que os gregos denominavam omphalós – umbigo do mundo. J. P. Vernant (1990) lembra que o omphalós de Delfos era considerado o trono de Héstia. Como umbigo do mundo, seu significado está também ligado à vida (Segundo Marie Delcourt, citada por Vernant, são duas as situações em que o umbigo é saliência e não cavidade: na barriga da mulher grávida, e no recém-nascido.)

Como sabemos, os hinos homéricos – assim chamados por terem sido escritos com uma métrica similar à usada pelo grande poeta Homero – são uma forma de enaltecer os deuses e pedir sua proteção em festas e rituais. Vamos ver o que o Hino Homérico a Héstia tem a nos revelar sobre a deusa.

  1. Hino Homérico 29: A Héstia

Tradução Edvanda B. Rosa

“Héstia, que nas altas moradas entre todos
os deuses imortais e os mortais que caminham sobre a terra
recebeste assento eterno, um sinal de deferência,
tens admirável prerrogativa e honra; sem ti
não há festins para os mortais, onde o iniciante não verta
a oferenda inicial e final de vinho doce como o mel à Héstia.
E também a ti, Argeifonte, filho de Zeus e Maia,
mensageiro dos bem-aventurados, deus do caduceu de ouro, doador dos bens,
sê-me propício e me protege com Héstia venerável que te é cara.
Ambos habitais as belas moradas dos homens da terra,
com sentimentos de amizade mútua. Quando agem bem,
vós lhe dais por companhia a inteligência e a juventude.
Salve, filha de Crono, e também tu, Hermes do caduceu de ouro!
Lembrar-me-ei de vós em meu próximo canto.”

 II – Hino Homérico 24: A Héstia

Tradução Edvanda B. Rosa

“Héstia, que na divina Pitô cuidas da sagrada morada
de Apolo, senhor que de longe fere,
cujos cabelos ondeantes distilam fluido azeite,
vem à minha casa, vem de comum acordo
com o prudente Zeus; concede também teu favor ao meu canto.”

(Hinos Homéricos, pp. 478-481)

O hino começa falando da qualidade do presente recebido por Héstia. É nos apresentada como a agraciada com assento eterno, e admirável prerrogativa e honra. Que belo presente! O culto aos deuses é o que faz com que eles sobrevivam por inúmeras gerações, e só se cultuados eles se fazem lembrados e eternos. Recordemos a fúria que as Erínias demonstram ao verem ameaçada a sua existência quando da instalação do tribunal para julgar Orestes, e a inauguração, nesse ato, de uma nova ordem da qual elas não mais fariam parte (ver “Eumêmides”, in Oréstia, Tradução de Mário Gama Kury, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003; e também Os abusos psíquicos, a inveja e a criatividade – o que a deusa Atena tem a nos ensinar, Sylvia Mello Silva Baptista, 2015, in http://nuparq.blogspot.com.br/)

Ser cultuada por homens e deuses garante uma presença perpétua da deusa na memória cotidiana de todos, tal como a onipresença de Zeus. Talvez por isso, por já ter garantida a honra de estar em todos os lugares sagrados, Héstia tenha aberto mão de seu lugar no Olimpo em favor de Dioniso. Nesse gesto está a sua generosidade em relação ao outro, bem como um reconhecimento naquele deus de um novo regente, um novo centro anunciado.

         “Sem ti não há festins para os mortais”, diz o hino, referindo-se à libação – o vinho ou a água que se verte na terra em honra ao deus-  sempre necessária nos rituais e encontros. Assim, faz-se um elo invisível entre a deusa e Dioniso, este o senhor do vinho e das festas, e o quarto regente, sucessor de Zeus. Para que se festeje, é necessário, pois que se consagre o encontro ao local sagrado de Héstia. Ao contrário da imagem circunspeta que a presença de Héstia evoca, o hino traz um lado da deusa que participa dos rituais como aquela que abre e que fecha, o primeiro e o último gole, e que, portanto, promove a união das pessoas ao redor de um sentimento.

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A proteção de Héstia é requisitada juntamente com a de Hermes (Argeifonte), sua contraparte, e a alusão que se faz é a dos sentimentos mútuos da amizade. A complementaridade do deus dos caminhos, que protege os viajantes, e cuida do espaço de fora da casa, e da deusa da lareira, que cuida do interior do lar, é notória. Ele, ágil, móvel, veloz, extrovertido, enquanto ela, suave, imóvel, lenta, introvertida. Ao lado disso, podemos pensar que como no símbolo chinês que une Yin e Yang, onde o branco contém uma gota do preto, bem como o preto contém uma gota do branco, Hermes e Héstia apresentam, cada um, uma característica do outro: Hermes, em toda sua mobilidade, leva consigo o caduceu, símbolo de um eixo que representa um centro firme e estável; Héstia, em sua plácida imobilidade, ativa a imaginação, veículo que se move dentro de nós como atividade possuidora de asas velozes.

O segundo hino faz referência a Apolo, cujo templo ficava em Delfos. O antigo nome de Delfos, essa antiga região da Fócida, era Pytho. Mesmo no templo do mais cultuado dos deuses –Apolo é o deus com maior quantidade de templos a ele dedicados-, é Héstia quem reina, quem cuida do fogo sagrado. A alusão ao fino óleo que lhe escorre dos cabelos me parece uma metáfora da permanente presença de Héstia. ‘Cabelos que distilam fluido azeite’ lembra uma fonte que percorre todo corpo de Héstia e a faz ser a própria brasa, a mecha que alimenta e mantém o fogo aceso. O cuidado, a amizade, a inteligência e a juventude são colocados juntos, bem como a aludida prudência de Zeus. Essa combinação nos ajudaria a encontrar o equilíbrio que a deusa do centro evoca.

Episódios vividos por Héstia:

1) No dicionário de Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal, encontramos que Héstia,

“a deusa da lareira, primeira filha de Crono e Réia, irmã de Zeus e Hera foi cortejada por Posídon e Apolo, e os rechaçou; pediu a Zeus a virgindade eterna, e ele a concedeu, além da honra especial de ser objeto de culto nas casas dos homens e em todos os templos de todas as divindades. Permanece imóvel no Olimpo. ‘Assim como a lareira doméstica é o centro religioso da morada, Héstia é o centro religioso da mansão divina’. Não desempenha papel algum nas lendas, sendo um princípio abstrato.”(p.265)

Discordo que Héstia não desempenha papel algum nas lendas, pois como veremos, mesmo seu silêncio e sua recusa têm efeito em quem a rodeia. Mas entendo que Grimal talvez tenha chamado a atenção de que a deusa não marca sua presença na mítica por ações. Seria assim mais interessante enxergá-la como, de fato, um efeito. Gosto de imaginá-la, bem como a Hermes (e penso que Afrodite também lhes faria companhia) como aquilo que os gregos chamam de energeia-  uma espécie de campo energético.

Talvez Posídon e Apolo tenham buscado em Héstia o que lhes faltava. O que, afinal um deus das águas e o deus sol podem querer com a deusa da lareira? Parece que seus elementos se excluem. A água e o fogo, a luz do sol e a penumbra da lareira com sua luz reduzida pelas brasas.

Posídon tem a impetuosidade como característica, totalmente contrastante com a imobilidade e posição contemplativa da deusa. Apolo traz atributos como a arrogância e a extroversão do pensamento que destoam de Héstia e sua introspecção. Sendo ela a deusa do centro, também podemos pensar que o distanciamento apolíneo, bem como a proximidade excessiva do sentimento de Posídon lhe trazem ojeriza, ou talvez uma ameaça ao seu equilíbrio. Daí de seu pedido a Zeus: a virgindade, ou a invulnerabilidade. O caráter de independência do masculino – este é o sentido de ‘virgem’ para o grego antigo- que esse atributo lhe dá, diferentemente de Atena e Ártemis, deusas também virgens, está a serviço da subjetividade e da contemplação. O outro fora dela é vivido como o outro interno, e a atenção a ele dirigida é a do cuidado e da reflexão. A deusa da lareira congrega e aquece os corações e é da qualidade do sagrado a coniunctio que propõe.

2) Afugenta Príapo, quando este tenta violentá-la, fugindo de terror e ridículo quando ouve seu grito.Quem a acorda é o zurro de um asno, animal a ela consagrado. Pede a Zeus que lhe conceda a condição da virgindade eterna. Ele não apenas o faz, como lhe dá a graça de receber a primeira e a última oferendas em todas as casas, de homens e deuses.

Podemos pensar que o seu lado instintual, figurado no asno, a desperta para a manutenção da condição de virgem. Seu grito é tão assustador que faz Príapo fugir. Pan também tinha um grito assustador, que fez fugir Delfínia, o monstro que Tífon encarregou de guardar os tendões de Zeus, quando de uma luta do gigante com o senhor do Olimpo. Pan e Príapo podem ser vistos como duas criaturas extremamente ligadas à dinâmica matriarcal, expressões de fertilidade e potência viril. Simbolicamente, a violência durante o sono, quando Héstia está fora de seu centro, talvez seja a maior das violências. O princípio fertilizador de Príapo não tem espaço na vida de Héstia. O jumento também aparece no mito cristão como um animal de Cristo. É um animal estéril, fruto do cruzamento do burro com égua.

Assim, Héstia parece estar em sintonia com um feminino primordial quando solta seu grito, e com isso preserva sua natureza. Segundo Graves (1990), “a tentativa de violação de Príapo é uma advertência, em forma de anedota, contra toda e qualquer atitude mais grosseira e sacrílega em relação às convidadas femininas que estejam sob a proteção da lareira privada ou pública” (p.72). Vernant (1990) traz uma referência onde virgem seria a denominação funcional para designar “aquela que se ocupa do fogo”, fazendo uma discriminação da qualidade desse fogo, diferente do fogo de Hefesto, o deus das forjas, ou o fogo das paixões provocadas por Afrodite. O fogo de Héstia tem um caráter sagrado, sendo a lareira o seu altar.

A essa ideia, se alia a da permanência que a deusa simboliza, se contrapondo ao poder sedutor e persuasivo de Afrodite, que consegue mover as mais rígidas opiniões. O episódio do pomo de ouro é um exemplo desse atributo da deusa do amor (consultar os capítulos referentes a Héstia, Afrodite e Atena em Mitologia Simbólica). Héstia é a que fica impassível no seu lugar, enquanto tudo gira à sua volta. O casamento, lembra Vernant (1990), é antes de mais nada, um comércio que se dá no contato entre opostos, masculino e feminino. A moça muda de estado pessoal e social ao se casar. Héstia contribui para essa passagem através do fogo da lareira levado para o novo lar; quando uma jovem se casava, era este o ritual perpetrado, fazendo com que a chama da lareira dos pais aquecesse a nova lareira dos noivos. Mas ela própria guarda sua castidade, deixando que as trocas se façam sob a guarda de Hermes.

3) Alceste se oferece em sacrifício para morrer no lugar de Admeto, quando este pede a Hades que o poupe. Alceste, então, entrega os filhos aos cuidados de Héstia.

O que se destaca aqui é a capacidade de acolhimento e maternagem que Alceste reconhece em Héstia. Para quem damos nossos filhos quando pressentimos a morte? Certamente a uma madrinha, uma mãe substituta, alguém capaz de cumprir nosso papel na nossa ausência, e alguém de nossa extrema confiança, que nos compreenda e tome para si a responsabilidade de cuidar daquilo que é nosso melhor produto, um prolongamento de nós mesmos. Héstia é a escolhida de Alceste. Assim, chama atenção para um atributo pouco reconhecido na deusa, o da maternagem. É uma face do feminino que se traduz de um modo distinto à maternagem de Deméter ou de Tétis. Como deusa virgem, faz com Atena e Ártemis uma tríade onde o materno tem uma expressão baseada na escolha. Virgens, e portanto não submetidas ao masculino, invioladas e intocadas, como já apontado, as três, curiosamente, são mães adotivas. Atena toma para si Erictônio, gerado pelo sêmen de Hefesto derramado sobre Geia, enquanto Ártemis tem sob sua responsabilidade as chamadas “ursinhas”, meninas em torno de nove anos que passavam ao seu lado por ritos iniciáticos e se dedicavam à deusa.

Este fato, das deusas virgens serem mães adotivas, ou mães que escolhem essa condição sem a concepção através do homem, reafirma o caráter da virgindade como algo totalmente distante da questão erótica ou maternal. Como virgens, as três deusas podiam se relacionar sexualmente com homens, bem como exercer sua face materna, sem, no entanto ficarem submetidas ao masculino, fazendo-se independentes e autônomas. No caso de Héstia e Atena, a virgindade se estende à questão sexual, também por uma escolha das deusas.

Nesse episódio, podemos notar ainda, a percepção e valorização que Héstia faz de Alceste de sua fidelidade ao amor do marido e sua capacidade de doação ao sacrifício. Se pensarmos em Héstia como um centro ordenado, a disponibilidade de morrer pelo outro, além de ser um amor de uma qualidade feminina que encontramos, por exemplo, na faceta maternal da mulher, em Alceste ocorre na relação amorosa, demonstrando o quanto esse feminino se encontra aberto a uma outra dimensão, uma dimensão de desapego e de alteridade. Há outras versões que trazem Alceste preocupada com que Admeto mantenha-se fiel a ela, mesmo após sua morte, trazendo questões e reflexões mais do campo de Hera. De qualquer forma, Alceste também se apresenta como figura centrada e sintônica aos princípios de Héstia quando se recusa a despedaçar o pai, “ainda que fosse por uma causa justa” (Graves, 1990, p.89) ao lado das irmãs, numa artimanha de Medeia que promete a Pélias o rejuvenescimento. Na verdade, Medeia tramou para matar Pélias e o conseguiu com a ingenuidade do mesmo e de duas de suas filhas. Mas essa é uma outra história…

4) Também na função de cuidadora, mas agora de um ícone, Héstia é a guardiã do Paládio, a estátua da jovem Palas, filha do deus Tritão, esculpida quando da morte da amiga inseparável de Atena.

Brandão (2000) nos conta que a estátua tinha o poder de garantir a integridade da pólis que a possuísse e a cultuasse. Ela caiu do Olimpo sobre o lugar onde mais tarde se fundaria Troia, e ali se construiu um grande templo a Atena. Há várias versões sobre o destino do verdadeiro Paládio –várias cópias foram feitas. Uma delas conta que Ulisses, com a ajuda de Diomedes, o roubou, após ouvir uma profecia que Troia jamais cairia enquanto o Paládio ali permanecesse. Outra, mais tardia, afirma que a estátua teria permanecido em Troia e teria sido salva do incêndio da cidade por Enéas, que a levou para Roma, onde foi depositada em um templo das Vestais –sacerdotisas de Héstia, chamada Vesta pelos romanos. (Brandão, 2000) Héstia também é compreendida como guardiã das reservas dos alimentos, segundo Paris (1994) sob a denominação de Héstia Tâmia, fato que também implica no bem estar dos que a rodeiam, e no proporcionar ao grupo sensação de segurança e confiança. É sob este título que “a deusa do lar assume esse papel duplo de concentração da riqueza e de delimitação dos patrimônios familiares” (Vernant, 1990, p.177).

5) Um importante episódio também traz embutido o aspecto da fidelidade de Héstia. Trata-se de um complô contra Zeus, armado por Hera, Apolo e Posídon, que coagiram todos os demais deuses, com exceção da deusa, a pôr fim ao domínio do petulante senhor do Olimpo.

Novamente Héstia se vê envolvida com Apolo e Posídon, e igualmente se nega a ligar-se a eles, ficando fiel a Zeus, (Graves, 1990) ou, simbolicamente, ao seu centro. O que está implicado nesse fato é o desejo de poder, e Héstia é sabidamente aquela que não se envolve em disputas. O poder que busca, ou que reconhece em si, é o do equilíbrio e da contemplação, que a mantém centrada e distante de intrigas.

É importante lembrar que como deusa da lareira, preza primordialmente o espaço –interno e externo, psíquico, corporal, da cidade, da Terra-. E faz-se, assim, protetora de um dos mais sagrados princípios da Grécia, o da hospitalidade. A lareira aquece e recebe quem dela se aproxima, e todos são bem vindos a esse espaço precioso. Os gregos viam como um dever sagrado o exercício da hospitalidade. Está aí um aspecto de Héstia que se abre ao novo, apesar da deusa ser eminentemente uma divindade da manutenção do que está. “Cozidos no altar da lareira doméstica, os alimentos realizam uma solidariedade religiosa entre os convivas; criam entre os participantes como que uma identidade de ser” (Vernant, 1990, p.167).

Dessa forma, Héstia se apresenta, através dessas passagens pela mítica, como um feminino primordial, filha de Reia, expressão da Grande Mãe, virgem intocada, cujo princípio masculino do foco se encontra integrado, exercitando o seu lado materno através da adoção, a maternidade escolhida, capaz de ser fiel e reconhecer no outro a fidelidade –a pistis– a um centro, feminino cuidador e congregador, que hospeda e acolhe o outro, trazendo-lhe segurança e confiança. É também a primeira filha a ser engolida por Crono e a última a ser libertada por Zeus, a deusa circular, o início e o fim, aproximando-se nesta polaridade da maturidade, da deusa Hécate, a deusa trina que compõem com Core e Perséfone três aspectos do desenvolvimento da mulher. Da primordial Reia à sábia Hécate, Héstia faz sua gesta nas entranhas de Crono, e sai dali introspecta e solitária, numa atitude que lhe será peculiar, o modo contemplativo de estar. Rejeita o excesso de água de Posídon, a luminosidade brilhante de Apolo, e a materialidade impositiva de Príapo, acolhendo apenas o veloz deus dos ares, Hermes. Dois símbolos de completude, esse par expressa modos complementares de ligação com o centro, numa sintonia ímpar.

A mulher regida por Héstia

Héstia seria um tipo ISFP, segundo a tipologia descrita por Myers & Myers em sua classificação tipológica MBTI. Isso a faria uma introvertida com a função sentimento como principal, e que surge no mundo com sua função auxiliar sensação extrovertida. Pessoas com esse perfil são guiadas por profundos valores internos. Gostam de contribuir para o bem estar dos outros, e são sensíveis e gentis. O sentimento introvertido imprime o caráter gregário, a não imposição das opiniões, e o prazer em estar com o outro. Valorizam aqueles que compreendem seus valores e sua forma de ser no mundo. Tentam ser coerentes com o que pensam e sentem. São pessoas que fazem uso da sua percepção de forma extrovertida, o que lhes possibilita prestar atenção em detalhes, voltar-se para os fatos, e exercer-se de modo prático. Focam-se no momento presente, e não gostam de dominar ou liderar. Preferem observar, de forma reservada e silenciosa. Demonstram sua preocupação com o outro através de ações. São independentes das opiniões alheias, e se mantêm ligados a uma lei moral interior.

Na vida, a mulher regida por Héstia é alguém que não faz questão de se casar, e se o fizer, o sexo para ela é algo vivido como simplesmente parte da relação, algo não buscado ou desejado. Se seu marido tiver uma relação extra-conjugal, isso não é uma ameaça ao casamento, desde que ele mantenha o respeito a ela e ao seu lar. Essa mulher seria zelosa do seu espaço, sempre buscando que sua casa fosse confortável e acolhedora. Cuidaria de seus filhos, bem como de outras crianças que julgasse precisarem de sua atenção. Se não se casasse, seria igualmente uma cuidadora das pessoas à sua volta, no trabalho, nos grupos que frequentasse, fazendo atividades assistenciais e altruístas. Pode ser uma religiosa, e viver em um convento ou num templo budista, não importando a fé. O valor está no cotidiano voltado à busca constante de um centro de essência e permanência.

Possivelmente foi uma criança quieta e comportada, sem chamar a atenção para si. Quando precisava, recolhia-se ao seu quarto e se introvertia. Como adolescente, igualmente procurava não se envolver em disputas ou competições. As questões amorosas não lhe atraíam e muitas vezes poderia ser vista como antissocial. No entanto, pode ser uma boa amiga, capaz de uma escuta atenta. No trabalho, o desenvolvimento em uma profissão não é sua meta. Não é uma pessoa ambiciosa e ou desejosa de poder. Gosta de trabalhar ao lado de outras pessoas em algo que acredita, e busca deixar seu ambiente aconchegante. Identifica-se mais com aquela que cuida do espaço, das provisões e da manutenção da tranquilidade do lar.

Podemos pensar que essas mesmas qualidades também estão presentes no homem regido por Héstia.

         Por que resgatar esta deusa?

Héstia me parece trazer elementos que nos dão subsídios para nos aproximarmos desses símbolos tão fortes e impregnantes do equilíbrio e da casa. Casa enquanto nosso corpo, casa enquanto nossa moradia, casa enquanto nosso planeta. Em tempos de violência contra a natureza, a grande Natureza e a nossa, individual, assediadas por visões distorcidas do que é ser humano, do que é saúde, do que é o bemviver, penso que trazer o âmbito de Héstia para o foco, achegar-se ao calor da lareira que a deusa representa, é fundamental para refletirmos sobre esses valores que ela manifesta: o centro, o respeito ao outro e a si, o cuidado com o corpo e com o habitat -no seu sentido mais amplo-, a disposição para o sagrado, para o ritual, para a hospitalidade.

Friso minha associação da deusa com a imaginação. Para mim, ela assim poderia ser caracterizada: com o epíteto de ‘deusa da imaginação’. Mais do que nunca, necessitamos do imaginário, da imagem, do imaginar como espaços do psíquico, e portanto da alma. Como nos alerta Hillman, sejamos menos literais e mais simbólicos, ou mais imaginais. A literalização dos problemas, dos contextos, dos olhares faz com que vivamos na aridez de uma casa/mundo sem poesia. É preciso poetizar, metaforizar, diversificar, imaginar. Héstia é o centro móvel, a brasa e calor, a contemplação sem pressa, o nosso lar interior. Imaginemos, pois, com poesia.

A Casa

É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel. 

(Adélia Prado, in ‘O Coração Disparado’)

 

Referências Bibliográficas

ALVARENGA, M.Z. & Cols.          (2007). Mitologia Simbólica. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007

BAPTISTA, S.M.S., LIMA,G.        (2007). A parceria Héstia-Hermes no fenômeno da resiliência, in Jung &Corpo 7. São Paulo: Sedes Sapientae.

BOLEN, J. S.                             (1989). Os deuses e o homem. São Paulo, Paulus, 2002.

(1984). As deusas e a mulher. São Paulo: Paulinas, 1990.

BRANDÃO, J. de S.                    (1986). Mitologia grega. Petrópolis, Vozes, v. II, 2002.

(1991). Dicionário Mítico-Etimológico. Petrópolis, Vozes, v. I e II, 2000.

GRAVES, R.                               (1990a). Os mitos gregos. Lisboa, Dom Quixote, v. I, 1995.

(1990b). Os mitos gregos. Lisboa, Dom Quixote, v. II, 1995.

(1990c). Os mitos gregos. Lisboa, Dom Quixote, v. III, 1995.

GRIMAL, P.                               (1951). Diccionario de Mitología Grega y Romana, Buenos Aires: Paidós, 2005

HILLMAN, J.                              (1980). Encarando os deuses. São Paulo, Cultrix/Pensamento,     1997.

HINOS HOMÉRICOS                  São Paulo, UNESP, 2010.

PARIS, G.                                  (1993) Meditações pagãs. Petrópolis, Vozes, 1994.

PRADO, A.                                (1978) O coração disparado. Rio de Janeiro, Record, 2006.

VERNANT, J.P.                           (1973) Mito e Pensamento Entre os Gregos: Estudos da Psicologia Histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

3 COMENTÁRIOS

  1. No Brasil de hoje, nossa diversidade cultural não tem correspondido as nosso ajuizamento. Sem imaginação, sucumbimos ao julgamento maniqueista
    Mais imaginação, mais criação, mais interpretação, mais amor, mais vida diversa.

  2. Querida Sylvia, belo artigo!
    Amei suas leituras simbólicas sobre Hestia!
    Como sempre bem escrito, informativo sem deixar de ser poético , delicado, gentil, brasa …. talvez escrito com a parceria da Hestia que te habita. Parabéns! Bj gde

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