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A Loucura e a Mitologia nossa de cada dia!

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A Loucura e a Mitologia nossa de cada dia!

Na doença do coletivo contemporâneo, de quais mitologias participamos no nosso dia a dia? Que deuses ou deusas cultuamos? Que mitos vivemos?

A psicopatologia é um braço da Psicologia e da Psiquiatria cada vez mais na pauta do dia. Se há poucos anos a doença, física ou psíquica, era posta à parte, levada pela nau dos loucos[1], hoje parece espreitar em cada esquina, com seu rosto soturno, nas grandes cidades, em manchetes de jornais, na grande rede virtual, nos quatro cantos do mundo. O cotidiano adoeceu, e a saúde rema um pequeno bote em um mar insano. Nós psicoterapeutas, precisamos de deuses auxiliares, e dos braços fortes de nossos heróis internos para fazer acontecer e valer um sentido na correnteza.

Estamos falando da pós-modernidade. Esta palavra tão repetida nos dias atuais, traz uma série de conteúdos da maior importância para a nossa reflexão. Os valores se alteraram, o tempo se acelerou, o mundo se constituiu de fato em uma aldeia global, e o ser humano tem-se mostrado seu próprio predador, o pior de todos que pudéssemos supor.

Mas a busca incansável de um sentido também é atributo do homem, e frente à maior desolação, a polaridade oposta parece acordar e querer se fazer valer. Se vemos uma falta absoluta de significado e uma desorientação generalizada das pessoas na contemporaneidade, em igual medida há uma procura intensa de algo que traga um alento e um rumo, uma presença mais marcante daquilo que Jung chamou de “religare”, o sentido religioso arquetípico no humano. É arquetípico porque é “arque”, antigo, e “típico”, porque um padrão. É do humano buscar uma razão maior da existência, tecer seu mito de criação, tentar compreender o mistério.

Os profissionais de ajuda, dentre os quais me incluo como analista junguiana, nos vemos refletindo incessantemente sobre essas questões. Remamos contra a corrente da cultura, na tentativa de fazer valer a ideia de que a transformação do indivíduo promove a transformação do coletivo. A máxima “ao salvar-se um homem, salva-se a humanidade” é para nós um guia.

A discussão a respeito da constituição e do funcionamento dos indivíduos amplia nossos recursos de compreensão da alma humana, e proporciona mais instrumentos para que a transformação do que precisa ser modificado possa se dar. O acréscimo do olhar pelo viés da mitologia enriquece ainda mais esse movimento reflexivo. Nós nos esquecemos sempre, mas é bom lembrar, que a consciência é algo extremamente recente na história da humanidade. Cada reflexão que se acrescente a ela, acreditamos, alarga o horizonte, traz um pouco mais de luz e auxilia na construção de uma cultura, ação que se faz, a cada dia, mais necessária.

 

         Escrevi o texto acima há pouco mais de 7 anos, e me pergunto o que mudou. Ainda estamos na pós-modernidade, ou, nossa época recebeu uma nova classificação. O autor dos termos “realidade líquida”, “identidade líquida” e toda a gama de diluições que cunharam muitas de suas reflexões, o admirável Zygmunt Bauman já não está entre nós, mas suas ideias permanecem, ironicamente, poder-se-ia dizer, como uma sólida pedra angular no que tange a definição do que vivemos hoje nas relações. Um mundo líquido e volátil.

Com a publicação do DSM V em 2013 – o livro da comunidade médica que compila as doenças psiquiátricas e determina padrões de conduta frente a transtornos e síndromes, num movimento de normatização dos eventos-, o chamado senso comum, que usa dessa ferramenta ou é dela sujeito, passou a consumir medicamentos por inúmeras razões que antes, há 20 ou 30 anos, nem sequer eram aventados. Uma das prescrições que mais me choca é a referente ao luto, e os sentimentos que o acompanham. Se uma pessoa perde um parente, um animal de estimação ou um emprego e em 15 dias não se sente ainda pronto a enfrentar a vida como antes da perda (isso é mensurável através da resposta a um número x de itens), diz o DSM V que tal condição já justifica a receita a esse indivíduo de antidepressivos. Receita-se antidepressivos como se prescreve um antiácido ou analgésico, sem culpa, remorso nem tampouco consciência e ética. Basta colocar-se a dor no diminutivo, e tudo cabe.

Jung falava que os deuses viraram doenças. Se vivo estivesse hoje, veria possivelmente com certo alarme, que as doenças multiplicaram-se em  transtornos, síndromes, males, e desordens, nomes pomposos que trazem consigo uma tarja preta, esta sim, capaz de transtornar um bocado a vida da pessoa. Ficamos ainda mais distantes dos deuses, na concepção grega antiga que tínhamos em um passado não tão longínquo.

E o que faziam os deuses por nós? Eles sussurravam em nossos ouvidos ou em nossos sonhos modos possíveis de encontrar meios de aliviar as dores da alma. Cada dia mais afastados dos ensinamentos contidos na mitologia, vemos Karl Kerényi, um grande estudioso dos mitos, amigo de Jung e colaborador dos círculos de discussões de Eranos-  na Suíça da década de 30, onde se reuniam profissionais dos mais variados pensamentos- fazer a seguinte afirmação:

A mitologia é a autorrepresentação do homem – na religião dionisíaca ela pretende ser até mesmo autorrepresentação do ser vivo – e ao mesmo tempo revelação do mundo. O ser próprio do homem e a realidade do ser circundante se exprimem nela ao mesmo tempo, de uma maneira própria da mitologia, que não é a maneira da música ou de outra arte, nem da filosofia ou de uma ciência. Nada que é humano e nada do mundo circundante estão excluídos da mitologia, por mais que, de outra maneira, sejam objeto de observações astronômicas ou de pesquisa psicológica” (p.16)

E o que fazemos nos dias atuais com esse arcabouço de revelações sobre as realidades humanas? Esquecemos dele completamente ou o qualificamos como mentiras ou bobagens ineficazes, lembrando que expressões como “isso é apenas um mito”, “isso não passa de mito” fazem companhia a “isso é só psicológico”, referente à invisível psique.

Kerényi, ao estudar os cultos a Asclépio  e Apolo, e os templos de Epidauro e Delfos, lembra que “o sentido de um deus especificamente caracterizado como deus da cura é o de que aquela fonte, por assim dizer, jorra dele. Ele não está presente apenas na virada da cura, mas sua aparição é a cura; e talvez também inversamente: toda cura é, por assim dizer, sua epifania. (…) A cura é enigmática em si”. (p. 34)

É interessante assinalar o que Kerényi chama atenção: para as características do caminho para a cura em Epidauro, e também Elêusis. A visita ao santuário não era uma ida a um médico, que é apenas uma mediação para a cura, “mas à própria cura em sua ocorrência nua e imediata, como era vivenciada ora em visões oníricas sublimes, ora também dramáticas”. (p.61)

Hoje vamos ao médico para encontrar a pílula da salvação, querendo que o milagre se dê sem a nossa participação. Por outro lado, o médico –nem todos, ainda bem!- participa de uma cadeia cruel de surdez à pessoa que o procura. No recém lançado livro “O doente imaginado” do cardiologista italiano Marco Bobbio, ele afirma que “(…) a medicina obteve muitos sucessos ao salvar vidas humanas, mas poucos para garantir uma vida sadia aos sobreviventes” e está (…) perdendo de vista o significado da peculiaridade do encontro entre médico e paciente”. (p.21)

Portanto, é preciso que voltemos a nos preocupar com a forma como vivemos, e tomemos consciência –consciência crítica– daquilo que nos circunda, lembrando o que Joseph Campbell nos alerta: “o mito é a manifestação de forças espirituais e, participando do mito, estamos ativando forças espirituais correlatas dentro de nós”. (p.163)

Que mitos vivemos? De quais mitologias participamos no nosso dia a dia? Que deuses ou deusas cultuamos no nosso cotidiano? São questões que deixo ao leitor para que reflita.

Referências bibliográficas

BOBBIO, M. O doente imaginado. São Paulo: Bamboo Editorial, 2016.

CAMPBELL, J. Deusas-Os mistérios do divino feminino. São Paulo: Palas Athena, 2015.

KERÉNYI, . Arquétipos da religião grega. Petrópolis: Vozes, 2015.

[1] Como se sabe, os doentes mentais, assim como os desajustados sociais na época da Idade Média, e até antes do nascimento da Psiquiatria Dinâmica e da revolução humanitária que se deu com a construção de asilos psiquiátricos, eram colocados em um barco e levados a alto mar, onde eram abandonados ao deus-dará. A essa embarcação cunhou-se o nome de “nau dos loucos”.

Sylvia Mello Silva Baptista
Analista junguiana, membro da SBPA/IAAP (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica), Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, professora, supervisora clínica e coordenadora do Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica (MiPA) da SBPA, membro do Núcleo de Mitologia da Areté (Centro de Estudos Helênicos). Autora do livros : Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento, Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas, e coautora de Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas e Ulisses, o herói da astúcia, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Autora do romance Segunda Pedra, além de contos em antologias, pelo selo Edith.

7 COMENTÁRIOS

  1. Excelente reflexão, que nos lembra e relembra, que para cada polaridade existe o seu oposto, e assim, quanto mais o homem se afasta de si mesmo, mais se quer encontrar.Grata pela generosidade da partilha, e que os deuses estejam em nós 🙂 e nós conscientes deles!

  2. Texto maravilhoso, sempre nos presenteando com uma belíssima escrita e nos dando um olhar amplo e crítico sobre assuntos importantíssimos. Gostaria apenas de lembrar que os critérios do DSM-V não têm o objetivo de estimular a medicalização indiscriminada do luto mas permitir que indivíduos que estejam passando por um sofrimento psíquico grave (com tentativas de suicídio, por exemplo), recebam atenção adequada, incluindo a farmacoterapia, quando esta se fizer necessária. A meu ver, como você bem colocou, visões extremas em todas as abordagens devem ter nosso olhar crítico, sem sombra de dúvida. Mais uma vez quero te parabenizar pelo excelente texto e pela generosidade em compartilhá-lo conosco!

  3. No meu trabalho de conclusão de curso, apresentei um capitulo intitulado !aos loucos, os rótulos” onde a medicalização do sofrimento psiquico na contemporaneidade é algo visto como natural e totalmente normal, anulando completamente esse sujeito de sua condição de sujeito que sofre e que precisa falar sobre esse sofrimento em busca da cura. E esse artigo me trouxe uma reflexão a cerca dessa cura medicamentosa que está sendo proliferada muitas vezes sem ao menos escutar o paciente…

  4. Lotus, Simone e Tânia, agradeço os comentários. Muito adequadas as observações de Simone, uma médica com muita consciência crítica e olhar cuidadoso ao outro. Como disse, há que se levar em conta as diferenças, e sempre que possível incluir a mitologia nas nossas fontes de aprendizado.

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