O Despertar Para a Mitologia

O Despertar Para a Mitologia

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Me formei na PUC/SP 1977 e tive a “sorte” de ter Jung na formação e no currículo. Convivi anos com Petho Sandor.

Tenho livro escrito e publicado:  “Consciência Individual – o eu perante as forças coletivizantes” (pela editora da PUC Goiás).

Tenho acompanhado suas publicações e gostaria de comungar uma constatação que está sendo minha, mas que pode e precisa ser de todos nós, psicólogos arquetípicos:

Jung se descrevia como um empírico. Ora, o que esteve na experiência de vida, possível ao homem Jung, foi inteligentemente buscado, custasse o que custasse ao pensamento da época e às concepções teóricas de então.

Uma das fotos mais famosas de Carl Gustav Jung

Ele percebeu e entrou em contato com forças naturais, os arquétipos.

Neste sentido ele identificava que os arquétipos são “pré formas” (energéticas, estruturadoras da matéria) e sua linguagem se adaptou, um tanto, ao seu momento histórico. De outro modo seria facilmente pré conceituado como místico e como shaman…

Mas, na tradição humana aí estão as mitologias, os mitos e os símbolos de um mundo “real” de energia estruturada, como forças naturais, construtoras até mesmo da realidade que percebemos egoicamente. Assim eram – ou foram – as mitologias, assim foi o desenvolvimento da Astrologia que conseguiu unir matemática, geometria, arquétipos, geometria sagrada, música…

Muitos que estão por trás das várias formas de seitas religiosas constituem interpretações das ações das expressões, no mundo real, destas forças energéticas que estão no pano de fundo da realidade psíquica percebida.

Então, meu abrir de consciência me demonstrou e demonstra que os arquétipos são uma energia real, presente na estruturação de nosso mundo, naturais, desde sempre, eternas a seu modo. Elas se expressam através dos símbolos. Muitos símbolos podem ser associados a um arquétipo e todos comungarão de seus significados, mas todos estes símbolos não esgotam nem traduzem o arquétipo, sendo apenas manifestações dele. Os arquétipos podem ser identificados simbolicamente, mas não se “esgotam” (em seus significantes) através de suas manifestações perceptíveis.

São forças, energias pré formadoras da realidade psíquica vivida, estão como um sub-plano, anterior à matéria e anterior à materialização egóica de todos nós. Anterior até à nossa capacidade de interpretar suas manifestações.

A evolução da humanidade também se expressa na evolução de seus mitos e interpretações a respeito de forças que apenas alguns dentre nós percebem e compreendem.

Então, o objeto desta minha discussão é: Eu mesmo fui vítima de minha formação acadêmica e das consequências interpretativas advindas da inconsciência de que os arquétipos são forças da natureza, estruturadoras univérsicas (provavelmente constituem a tessitura do universo propriamente dito). Por muitos anos estudei e compreendi estas noções através, por exemplo, da astrologia e seu conhecimento sobre coincidências e ações conjugadas de várias forças naturais dentro de um sistema organizado e em busca da consciência de si mesmo, ou seja o Self.

Por favor, despertem para o perigo de que vocês mesmos e, por consequência, todos os “alunos e seus leitores” estarem tomando a concepção Junguiana da psique como “apenas psicológica”. Estarem se apropriando da noção do mito como fosse uma teoria ou uma fantasia apenas psicológica, estarem tomando as mitologias como frutos (meramente conceituais) de homens que não eram “modernos” e que se entregaram a suas crenças no divino e no mágico, homens de algum modo primitivos por ainda acreditarem em um mundo de forças divinas, mágicas, misteriosas, acima dos homens e, pior, dominadoras em nosso inconsciente pessoal e coletivo.

Tomar o plano arquetípico da existência como apenas psicológico transforma a descrição – quando é possível – destas forças em algo que beira o apenas conceitual, cheira a algo concebido apenas mentalmente, se parece (nas descrições de Deusas e Deuses da antiguidade) a algum constructo teórico e metafísico, o que não deixa de ser, mas nos termos que defini acima.

Na história da humanidade as mitologias sempre demonstraram o grau de consciência coletiva adquirida, por culturas, em seu apogeu e glória, Índia e China, Japão, Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma e Europa (para nós ocidentais, uma referência interpretativa básica) mas também Astecas e Maias, Incas…

Quero lhe chamar a atenção para o fato de que Artêmis, Eros, Psique, Apolo, etc. São forças reais, naturais, ainda que quânticas e metafísicas, e que os mitos derivados destas figuras arquetípicas são descrições de seus efeitos na realidade psíquica humana e, claro, na vida de todos nós.

Todos fomos aculturados desde cedo e perdemos a percepção e a vivência deste plano de realidade em prol de uma submissão cada vez mais acentuada ao mundo dos sentidos egóicos.  Psicologicamente nos tornamos “físicos newtonianos” que só aceitam um plano da realidade, o plano material, aquele que temos o poder de modificar e que nos dá uma sensação de que somos poderosos diante das forças naturais, vamos controla-las e faze-las servidoras, dos nossos interesses, desejos e necessidades.  Muito disto foi conseguido, a evolução tecnológica e o desenvolvimento de máquinas inteligentes demonstra que o poder egóico é real e que, conquistamos algo diante do universo. A consciência crescente das leis do funcionamento do plano divino acorda de seu transe e se torna conhecedora do fruto da árvore do Bem e do Mal. Grandes aquisições, portentosas realizações, mas ficamos ensimesmados, iludidos quanto ao nosso lugar diante de poderes que estão acima e adiante de nós, o desconhecido, o mistério, o inconsciente pessoal e coletivo, com seus conteúdos do passado e do futuro de todos nós. A vaidade é nosso maior desafio.

Por favor, considere estes meus comentários – muito sintéticos – como uma colaboração minha aos esforços de tornar Jung mais praticado e conscientizável, como uma colher de ingrediente na sopa arquetípica, como um tempero que não pode faltar na reflexão de quem se aproxime de Jung: os arquétipos são forças reais, não apenas psicológicas, não apenas fantasias ou imaginações, não apenas algo alucinógeno da parte de psicólogos que, de algum modo, estão com um pé ou o corpo, “fora da realidade”.

Jung dedicou sua vida a dar realidade psicológica ao plano arquetípico, mas também cuidou muito bem quanto ao choque de suas concepções frente ao pensamento de sua época. De outro modo, talvez, cairia no ostracismo e na descrença de sua época.  Nós mesmos, aqueles que se aproximam de comungar de sua visão da psique e da natureza, temos que fazer o inverso e restituir os pingos nos ís que faltaram.

Mitologias como a grega, a romana, a egípcia, orientalismos, concepções religiosas de todos os tempos, filosofias interpretativas do que se poderia chamar de “plano divino” são expressões humanas de uma compreensão e conscientização do Self como realidade psicológica, como consciência de um Todo representado em nós, esta experiência pode ser vivida, mas muito mais difícil é explicar ou justificar esta possibilidade. “Quem sabe cala e quem não sabe fala muito…”

Mitologia Romana em uma placa de mármore. Fonte: Wikipédia

Comungue a noção de que o plano da energia psíquica está subjacente à nossa realidade propriamente vivida. Assim está sendo expresso na física quântica de nossos dias. Não podemos continuar submissos ao pensamento da época.  Nossa visão e a de Jung transcende nossa época histórica, encontra suas raízes no passado da humanidade e aponta também o futuro.

O psicólogo que não sabe, não conscientizou, que a energia está construindo a matéria, ou seja, nós mesmos, que não sabe o que significa Scintilla como descrita na época medieval.

Se somos uma semente energética em busca de consciência, se o próprio Deus pode estar aprendendo através de nós, então temos que despertar alunos e leitores para esta realidade, este plano é alvo de todas as mitologias de todos os tempos, este plano motiva e abastece todas as religiões conhecidas e todas as possíveis “imagens de deus” a serem construídas.

Para todos um abraço deste “colega de caminhada consciencial”.

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1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia, parabéns pela reflexão tornadas a nós, tão pouco ou nada é passado sobre mitologia nas ciências psicológicas. Agradeço por sua complacência a respeito de Jung.

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