Início Contos de Fadas Contos de Fadas e a Separação do Pai

Contos de Fadas e a Separação do Pai

7748
0

Nesse texto gostaria de falar de um tema bastante recorrente em mitos e contos de fadas:

  • O noivo monstro ou animal.

Encontramos esse tema em diversos contos, como por exemplo:

  • A Bela e a Fera;
  • A Andorinha que Canta e Pula dos Irmãos Grimm;
  • E o Mito de Eros e Psiquê.




Contos de Fadas e a Separação do Pai

Nesses contos, a heroína acaba sendo prometida a um monstro (ou animal) pelo pai que rouba algo (uma flor do jardim por exemplo) dele. Por amor ao pai a moça aceita seu destino e o monstro se transforma por meio da fidelidade que a moça tem ao seu amor.

O Mito Eros e Psiquê

No mito Eros e Psiquê, por exemplo, o pai da moça a leva ao topo da montanha para se casar com um monstro. Eros, apesar de sua beleza é um monstro e ela é proibida de contemplar a sua bela face, seu aspecto positivo e sublime permanece escondido dela.



A Bela e a Fera

Em A Bela e a Fera a moça só a vê a feiura aparente do marido que foi amaldiçoado por uma bruxa. Ela tem sentimentos ambíguos de nojo e atração ao mesmo tempo.

Em algumas variantes de contos de fadas, o marido/monstro, é um belo príncipe a noite e monstro de dia.

Esse marido acaba sendo redimido e transformado quando ela se recusa a abandoná-lo, ou quando ela revela seu esconderijo na hora certa.

Em Eros e Psiquê, a ansiedade tomou conta da heroína, fazendo com que ela descobrisse sua identidade antes da hora.

Ainda não havia confiança e sua curiosidade e ansiedade desmedidos mostrou uma infantilidade psíquica que precisava ser transformada.




 

Quando acontece antes da hora a heroína deve passar por uma missão aparentemente sem fim para reaver o amado.

Outra característica desse tema nos contos é que o amado sempre apresenta uma dualidade: monstro horripilante e assustador e belo, jovem e sedutor.

Ele costuma ser um bicho ou monstro que ninguém consegue amar, mas que foi amaldiçoado. Sua aparência causa nojo e pavor, especialmente quando ele pede um beijo.

Outra semelhança extremamente relevante para nossa compreensão é o fato de o pai prometer a filha para se safar de uma situação.

A Donzela Sem Mãos

Em A Donzela Sem Mãos, o pai promete a filha ao diabo para obter riqueza, em A Bela e a Fera, o pai promete a filha para não ser morto, e em Eros e Psiquê, o pai aceita a condição do oráculo sem questionar para que a imagem da filha (que não casou ainda) não seja maculada. Em A andorinha, que canta e pula o pai promete a filha mais nova a um leão para que esse lhe poupe a vida.

Nos contos de fadas geralmente esse pai encontra o monstro após ficar perdido em uma floresta, ou em uma situação difícil (como a pobreza por exemplo).

A Andorinha Que Canta e Pula

Em A Andorinha que Canta e Pula, a filha lhe pediu a andorinha e ele só a encontra na floresta.

Estar na floresta significa que esse pai entra na esfera instintiva. Ele perdeu seus instintos e por isso foi tomado por fantasias inconscientes. Sua consciência perde a direção e o leva ao perigo do confronto com instintos inconscientes.

Por trás dessa desorientação está a fera, o bicho, o monstro. Ele geralmente está amaldiçoado por uma figura feminina. Sendo tomado pelos instintos mais primitivos. Ou seja, o pai (regente patriarcal da consciência) precisa do confronto com um aspecto sombrio carregado de instintos por ele negado.

O Pai, a Filha e o Monstro

O tema do pai que entrega a filha a um monstro fala do rompimento simbólico da relação incestuosa com o pai. Essa desorientação do pai interno na mulher é quando ela perde seu rumo, o controle.

As leis (representadas pelo pai) já não lhe servem como guia e é preciso que se encontre uma nova lei interna, um novo sistema de orientação.

Em A Bela e a Fera, ao elucidarmos todo o seu simbolismo, verificaremos que a Bela representa qualquer jovem ou mulher envolvida numa ligação afetiva com o pai, ligação que só não se estreita mais devido à natureza espiritual do sentimento que os une. É como se ela desejasse ser salva de um amor que a mantém virtuosa, mas em uma atitude irreal. (Jung, 1977)




Sacrifício

Nesses contos é típico o pai ficar em uma situação difícil e uma solução rápida se apresenta e ele a aceita de bom grado. Mas a situação exige um sacrifício (geralmente a filha sem que ele saiba), que simbolicamente representa a relação com ela, e o incesto inconsciente, que impede que a filha cresça.

Laços Incestuosos

Conforme Kast (2006) podemos considerar os laços incestuosos de maneira simbólica, como uma ligação excessiva as normas reinantes na consciência, personificadas na figura do pai, que impossibilitam que ela vivencie com um homem, ou seu próprio lado masculino como “totalmente outro”.

Para cortar a ligação incestuosa, que transforma o homem em apenas um conceito é preciso se relacionar e aprender a amar a Fera.

Conforme Jung (1977):

“Em a Bela e a Fera, ela, desperta para o poder do amor humano disfarçado na sua forma animal (e, portanto, imperfeita), mas também genuinamente erótica. Presumivelmente este fenômeno representa o despertar das verdadeiras funções do seu relacionamento, permitindo-lhe aceitar o componente erótico do desejo inicial que fora reprimido por medo ao incesto. Para deixar o pai precisou, por assim dizer, aceitar este medo ao incesto e tê-lo presente apenas na sua fantasia, até conhecer o homem-animal e descobrir suas verdadeiras reações como mulher.”

A Mãe Ausente




 

Nesses contos, é comum a mãe estar ausente, o que simbolicamente significa que ela se afastou de seus instintos. A mãe ausente traz uma insegurança para a mulher sobre a sua feminilidade.

Ela não sabe o que é ser feminina de fato, por isso pode buscar substitutos teóricos, sendo facilmente dominada por um animus negativo.

Ou seja, pensando ser feminina, ela irá ser dominada por conceitos que estão em voga na sociedade, padrões que ditam aquilo que é o feminino de acordo com o espirito da época, e que pode não ter absolutamente nada com a sua natureza mais profunda.

O Masculino Numinoso

Nesses contos a heroína está lidando com a força do masculino numinoso, que causa atração e repulsa ao mesmo tempo. Uma força masculina arrebatadora, porém, anônima ainda.

Conforme Neumann (2000), encontramos esse masculino monstro serpente, dragão em um grande número de ansiedades sexuais e comportamentos neuróticos da mulher, que dificultam seu relacionamento com o homem.

Frequentemente, por detrás da ansiedade e neurose, está a fantasia do incesto com o pai pessoal. Mas essa é também uma experiência arquetípica, por isso tão representada nos contos e nos mitos.

Assumindo Suas Relações

Essa lealdade e “casamento” inconsciente com o pai, leva a mulher a odiar e desprezar todos os outros homens. Eles passam a ser monstros maquiavélicos que só querem abusar dela. E toda responsabilidade do fracasso da relação recai no homem, ela não assume nada.

O medo e a ansiedade em relação a masculinidade, a sexualidade, faz com que em suas fantasias o homem se apresente de forma ambígua, mas sombria e obscura.

O enfrentamento desse medo é uma verdadeira iniciação para que a mulher se torne madura.




Conforme Jung (1977):

“Aprendendo a amar a Fera, a Bela desperta para o poder do amor humano disfarçado na sua forma animal (e, portanto, imperfeita), mas também genuinamente erótica. Presumivelmente este fenômeno representa o despertar das verdadeiras funções do seu relacionamento, permitindo-lhe aceitar o componente erótico do desejo inicial que fora reprimido por medo ao incesto. Para deixar o pai precisou, por assim dizer, aceitar este medo ao incesto e tê-lo presente apenas na sua fantasia, até conhecer o homem animal e descobrir suas verdadeiras reações como mulher.”

O Noivo Animal

Nos contos onde aparece o noivo-animal, ele comumente está amaldiçoado por uma bruxa, que o transformou em um monstro. Aqui a influencia materna é mais sutil, mas está presente.

Na mulher, sugere que a mãe transmite a imagem de um masculino de forma tão intensa, que a menina compreende de forma monstruosa e ameaçadora, quase um animal, e não um ser humano.

No menino, o apego excessivo a mãe mostrara às mulheres sua sexualidade e agressividade. Seu lado sensível e comprometido é leal à mãe.

Conclusão

O desenvolvimento da relação incestuosa, para uma relação real com o masculino, tem seu fim quando ela se mantém firme na decisão de não abandonar o masculino positivo. Ou seja, quando a Bela sente falta da Fera e decide voltar. Ou quando Psiquê, mesmo em meio a tanta dificuldade se mantém firme em busca do amor e mantém em segredo sua gravidez.

 

Referências bibliográficas:

JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

KAST, V. A Ansiedade e formas de lidar com ela nos com ela nos contos de fadas. São Paulo, Paulus: 2006.

NEUMAN, E. O medo do feminino e outros ensaios sobre a psicologia feminina. São Paulo, Paulus: 2000.

_____________ Amor e Psique – Uma interpretação psicológica do conto de Apuléio. São Paulo, Cultrix: 2017.

VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here