Meditação na Clínica Junguiana

Meditação na Clínica Junguiana

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Meditação na Clínica Junguiana

Meditação e Individuação: Benefícios do uso da meditação no atendimento clínico e as semelhanças de sua base teórica com o processo de individuação Junguiana. 

A psicanálise Freudiana afirma que é preciso fortalecer o ego para ter uma vida plena. Já o budismo e outras filosofias orientais afirmam que é preciso abandonar o ego para ter uma existência mais significativa, para evoluir. Atualmente existem muitos estudiosos, psicólogos e terapeutas que buscam integrar essas duas vertentes de pensamento, que parecem a princípio opostas. Porém poucos admitem, ou mesmo conhecem, o fato de que há aproximadamente um século Carl Gustav Jung já havia integrado esses dois pontos de vistas da humanidade, quando desenvolveu a sua teoria do “Processo de Individuação” e conceitos como o “Self”.

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A Clínica Junguiana sempre se propôs a ajudar o indivíduo a ir muito além do fortalecimento do ego, buscando um aprofundamento no âmbito do inconsciente coletivo, um “descascar” de camadas superficiais, e a integração dos opostos até a totalidade psíquica. A “busca” por essa totalidade, o entendimento do universo como um todo e a compreensão da integração de todas as “partes” existentes, também estão presentes no budismo e em outras filosofias orientais.

Para Jung nós não somos o nosso ego. Não somos formados apenas pelas nossas experiências, influências do ambiente e de pessoas “chaves” no desenvolvimento infantil como pais, familiares e professores; isso tudo forma o ego. Porém nós temos um “centro” essencial, que vem antes disso tudo, inato, que seria quem realmente somos. A este outro centro da psique Jung denominou “Self”. Todo o processo de individuação se resume na tomada de consciência desse self.

Inicialmente nós só temos consciência do ego, ele que define para nós mesmos quem somos. O Self está inconsciente. Durante o processo de individuação (que vale lembrar é um processo contínuo, infinito e não linear), começamos a integrar os conteúdos que estão no nosso inconsciente, e assim nos tornamos cada vez mais inteiros, cada vez mais conscientes de quem realmente somos.

Meditação e o Processo de Individuação

Jung definiu algumas etapas desse processo, que como eu já disse, não é linear, porém podemos ver alguns pontos pelos quais todos passam, como: O reconhecimento da persona, que são os papeis sociais que interpretamos e nos identificamos, que usamos como “máscaras” em nosso dia-a-dia; o confronto com a sombra que são os nossos conteúdos mais inconscientes, os quais negamos, não queremos admitir que temos e projetamos no outro; e a integração da ânima e do ânimus, que são as energias Yin e Yang (feminino e masculino) que existem dentro de nós.

Todas as etapas desse processo são passos a caminho da totalidade psíquica e nos aproximam mais da nossa verdadeira natureza, pois é como se fossemos tirando camadas que nos impediam de percebê-la. Conforme vamos percebendo essa natureza essencial, ela vai se tornando mais consciente e logo mais ativa em nossa vida e dia-a-dia. Passamos a pensar e agir mais da forma que realmente somos do que da maneira antiga do ego. Porém você não deixa de ter ego. Ele continua existindo, pois você precisa dele pra viver em sociedade, ele só não comanda mais totalmente a sua vida.

Logo na clínica Junguiana trabalhamos sim no fortalecimento do ego, mas para que a pessoa tenha estrutura psíquica para enfrentar todas essas etapas e desconstruir essa “falsa” identidade para encontrar quem ela realmente é.

Todo esse processo se assemelha muito a alguns textos e filosofias orientais milenares. Principalmente as não-duais que defendem exatamente o encontro da verdadeira natureza, mas sem negar o mundo em que se vive, a realidade externa.

Algumas   práticas   de   meditação,   como   por   exemplo   a  meditação mindfulness, propõe a atenção plena no momento presente e o “desligar” dos pensamentos, que nos traz a compreensão de que não somos a nossa mente, mas sim uma consciência “além” dela, que a observa e que pode sim, direcioná-la. Com a regularidade dessa pratica, realmente sentimos que não somos os nossos pensamentos, sentimos essa “atenção plena” essa consciência por trás da mente. Em outras palavras a proposta é a mesma do processo de individuação, um distanciar do próprio ego, para compreender que somos muito mais que ele.

Se distanciando do Ego

Quando não nos identificamos com nossos pensamentos, os processos de “cura” se tornam muito mais acelerados. Se você observar são os nossos padrões de pensamentos, nossa forma de pensar, nossa mente, que cria as nossas patologias. Se conseguimos nos distanciar deles, observar seus padrões e começar a quebrar e/ou transformar esses padrões, podemos amenizar imensamente ou até mesmo acabar com diversas doenças da mente e do corpo.

Se você se identifica com a sua “doença” ou com seu “problema” (“eu sou ansiosa”, “eu sou deprimida”, “eu sou inferior/gorda/magra/feia/etc- e por isso tenho um distúrbio alimentar”, enfim) o processo de cura se torna muito mais difícil, pois curar seria abandonar uma parte de si, seria “destruir” uma parte do seu ego, destruir algo que você acredita ser, parte da sua identidade. Por pior que a doença possa ser na prática, isso gera um enorme apego inconsciente e, também de forma inconsciente, o ego se defende de tudo que quer “destruí-lo”, resumindo seu inconsciente trabalha contra a cura.

Se compreendemos e sentimos que não somos apenas esse ego, que não somos esses pensamentos, que existe uma natureza do ser mais profunda e livre desses padrões, automaticamente nosso inconsciente busca essa natureza de forma muito mais contundente, pois como disse Jung, o nosso inconsciente busca naturalmente a integração, a totalidade psíquica. Por isso a meditação é tão eficaz no processo, pois com regularidade a prática traz exatamente essa sensação de “Ser“: essencial, pleno e inteiro.

Combinada com a terapia, ao mesmo tempo trabalhamos no fortalecimento da pessoa para que ela consiga lidar com o processo de “abandono” do que ela acreditava ser, que é um processo possível porém bem difícil de se fazer só; e em paralelo com o reconectar-se com a sua essência, com seu Self. É um caminho espiralado de confrontar, compreender, abandonar e reconhecer… Não foi à toa que Jung denominou de processo de individuação, pois é mesmo um processo, que não tem um objetivo final, é um processo de uma vida inteira.

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Referências Bibliográficas:

Trungpa, chogyam. Muito Além do Divã Ocidental. Editora Cultrix, 2008. Trungpa, chogyam, Transcending Madness. Editora Shamballa, 1992.

Jung, C.G, O eu e o inconsciente. Obras completas vol.VII/2. Editora Vozes Jung, C.G, A prática da psicoterapia. Obras Completas vol.XVI/1. Editora Vozes

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Vanessa Martins
Vanessa Martins é formada em Psicanálise Freudiana e Pós Graduada em Teoria e Prática Junguiana na Universidade Veiga de Almeida no Rio. Trabalha com atendimento clínico individual, adulto e infantil, tendo ministrado diversos cursos e workshops no Rio e em Campos. Sempre buscando alternativas para cuidar da saúde física e mental de seus clientes, Vanessa fez diversas formações como a formação na linha de Florais "Terapia de cristais Dharma", formação no estudo do Tarot Mitológico, em Aromaterapia e em Numerologia Cabalística. Também aprofundou seus estudos em diversos métodos de meditação e agregou à clínica, desde o início de sua carreira, conhecimentos da filosofia oriental como a prática de meditações, exercícios do yoga e dicas da medicina ayurvédica. Hoje trabalha com a prática de meditação na clínica associada ao processo terapêutico, tendo ótimos resultados.

7 COMENTÁRIOS

  1. Bom que o enfoque junguiano esteja se voltando para essas práticas. A meditação hoje é recomendada para tudo, mas existem variados tipos de meditação e acho que isso varia de pessoa a pessoa e de acordo com as fases do processo. Para os ocidentais é difícil no início, pois como o Jung mesmo diz, a tendência dos ocidentais é exterior, extrovertida e dos orientais interior, introvertida. Para os orientais é mais fácil meditar, portanto. Mas vale a pena iniciar uma busca da meditação adequada para cada um. Em alguns pontos de um processo de individuação(na acepção de Jung) “calar o diálogo interno” não é bom, porque o processo necessita de diálogo interno e de fricção para ir adiante. Há que se chegar a um terceiro ponto de vista. O si-mesmo significa um espaço, uma “cidade” simbolicamente entendida, como coloca Hillman, formada por consciente e inconsciente. Um denominador comum. Hoje muito do que dizemos sobre individuação já está “povoado” de psicologia transpessoal, vivencias espirituais, como o parágrafo da desidentificação, que tem muito de Assagioli. Jung trabalha a diferenciação das funções, dos arquétipos centrais e o ego não deixa de ter importância, só que o diálogo entre Self e Ego se estreita e ele perde o timão do barco para dar lugar ao si-mesmo, que é uma síntese de consciente e inconsciente. O ego tem que ser forte, no sentido de que é necessário se fortalecer ao longo do processo para permitir contracenar com o inconsciente, sem querer controlar o processo. Muito do que se faz no processo depende do Ego e por isso ele tem que ser trabalhado nesse sentido. A força do self é grande e se houver resistência, pior para quem vive o processo, mas também tem que ser considerada a força das pulsões, dos afetos, que são inconscientes e de difícil controle pelo ego. A meditação nesse caso vem no auxílio, mas existem outras coisas dependendo do que se está trabalhando, a dança, a arte marcial, a arte em geral e/ou arteterapia, lidar com a natureza, com a terra, com os aromas, os sabores. O processo exige coisa variáveis em todas as funções e a pessoa necessita estar á disposição disso. Há uma meditação ensinada pelo Guia do Pathwork, através de Eva Pierrakos, em que se utiliza a meditação de três vozes, em que há um diálogo entre “eu inferior” (leia-se criança ferida, pulsões, afetos) o eu (ego) e “eu superior” ( leia-se self). Essa meditação antes de entrar em uma meditação do vazio, ajuda no diálogo interior. Há coisas que o ego não pode fazer sozinho, o inconsciente é muito poderoso, e é o eu superior ou self quem ajuda nesse processo que jung chamaria “função transcendente”.

      • Obrigada Elis. O texto da Vanessa é muito bom e nos ajuda a pensar sobre essas questões , que acrescenta as atividades de clínica, já que o processo de individuação é muito amplo e agradecer também o Jung na Prática porque possibilita esse debate e põe para “fora do armário” (rss…rss..) aquilo que é uma experiência diferenciada de muitos terapeutas junguianos e as experiências em várias áreas.

    • Obrigada pela sua contribuição Veronica!
      Muito bem colocado o que você disse sobre a importância do diálogo interno durante algumas etapas do processo de individuação, por isso mesmo que ressalto no texto a diferença entre o uso da meditação associada ao processo terapêutico e a meditação dentro de algumas filosofias religiosas como o budismo, por exemplo. Realmente o objetivo é associar essa prática ao processo terapêutico, para acelerar o processo auxiliando a pessoa se distanciar do ego e se aproximar do Self. Pois o Self , como o próprio Jung diz, é algo que dificilmente pode ser explicado pela mente racional, é muito mais sentido do que explicado, e é com esse objetivo que calar por um momento o diálogo interno se torna importante. Outro ponto interessante que você trouxe é a utilização de outras técnicas como a Arteterapia, a dança, artes marciais, etc. São técnicas que auxiliam muito o processo também e todas podem ser utilizadas em conjunto e em momentos diferentes. E também é importante lembrar que algumas pessoas tem mais afinidade com algumas práticas e menos com outras, é importante o terapeuta observar isso, pois cada ser é único! Nem sempre a mesma prática irá ajudar à todas as pessoas. Obrigada novamente pela sua contribuição, agregou muito ao tema!

      • Obrigada a você também Vanessa e ao Jung na prática, porque podemos trocar de longe conhecimentos e experiências, que saem um pouco de terapias ás vezes muito convencionais, mas que muitas vezes não são suficientes, já que o processo de individuação é muito amplo, abrangente e exigente. Recentemente através do Jung na Prática vi com felicidade que muitos terapeutas abriram essa possibilidade de trabalhar em conjunto com arteterapia, sandplay, meditação e tantas outras que na verdade o próprio processo pede. Não á toa Jung sofria com a história de que trabalhava com arte, mas não se considerava artista. A via simbólica é muito importante e ás vezes a terapia quando é muito convencional não consegue acompanhar. Não se pode ter duas orientações. Quem comanda o processo é o Self. E aumentar a conexão com ele, seja através de meditação ou outra atividade simbólica, que é a linguagem do inconsciente faz a pessoa permanecer e se mover em sua individuação. Acho essa troca nesse espaço muito importante.

  2. Cara Vanessa, A forma simples e clara com que você explica coisas profundas e que muitas vezes nos são apresentadas como complexas é muito bacana. Coloca ao alcance de muitos a essência da individuação e das definições da psicologia como sendo realmente parte integrante de todos nós, o que realmente é. Te felicito pela maestria da sua abordagem.

    • Olá Herberto, muito obrigada!
      Procuro em meus textos facilitar mesmo a linguagem para entendimento de todos, pois acredito que são conhecimentos preciosos que sites como este nos dão a possibilidade de divulgar. Fico muito feliz em poder contribuir.

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