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Por Quem os Sinos Dobram

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Outro dia lendo um artigo no jornal local, me deparei com as reflexões feitas por um jurista a respeito do livro em inglês: For Whom the Bell Tolls, romance de 1940 do escritor norte-americano Enerst Hemingway, considerado pela crítica uma das suas melhores obras. O livro narra a história de Robert Jordan, um jovem norte-americano das Brigadas Internacionais, durante a guerra civil Espanhola.

O que chamou a atenção neste artigo foi o poema citado e que abre o livro da obra aqui mencionada.

Todo homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra. Se um pequeno torrão carregado pelo mar deixa menor a Europa, como se todo um promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem diminui porque pertenço à Humanidade! Portanto, nunca procura saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

Os sinos dobram por ti. Não importa em qual parte do globo você está hoje, a situação da humanidade nos afeta por mais que não entremos em contato com a realidade, por mais que desejamos ser alienados de tudo.

A motivação para escrever sobre esse tema partiu da lembrança de um conceito importante da obra de Jung que são os arquétipos e o inconsciente coletivo, isto é, padrões de percepção e compreensão psíquicas comuns a todos os seres humanos como membros da raça humana.

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O que vivemos hoje é que cada geração acha que sabe mais do que a anterior. A razão deixou de ter valor e o que conta é a opinião, afinal, se você não tiver opinião você não é nada e aí chegamos ao nosso querido conhecido, o Ego!

Não o Ego que nos estrutura, mas aquele que nos aproxima da nossa sombra. Aqueles aspectos desagradáveis e imorais de nós mesmos que gostaríamos de fingir que não existem ou que eles não têm efeitos sobre nossa vida, nossas inferioridades, nossos impulsos inaceitáveis; nossos atos e desejos vergonhosos formam um lado sombrio de nossa personalidade que é difícil e doloroso de assumir. (§ 2,p. 95).

Acredito que ninguém colocará em questionamento que vivemos hoje o lado sombrio da humanidade. Basta para isso ligar a televisão ou mesmo ter contato com o que é postado nas redes sociais.

No caso da sombra, essa necessidade metafórica se torna uma virtude, pois podemos entender o conceito de Jung de sombra melhor se levarmos a metáfora física muito a sério. Assim como qualquer luz brilhante sempre projeta sombra em algum lugar, o brilho da consciência do eu sempre projeta uma sombra sobre a personalidade de um indivíduo, uma sombra que tem a mesma relação com o poder e as potencialidades do eu que um negativo fotográfico tem com a foto em si. (§1, p.95)

Os tempos sombrios estão presentes quer aceitemos ou não e são importantes para nosso olhar frente as nossas próprias limitações. Uma oportunidade que temos para vencê-los de alguma forma.

Como não existe mágica neste processo, uma das possibilidades é o processo terapêutico que, sob o ponto de vista de Jung influenciado profundamente pela ideia de Freud de que a verdadeira cura acontece não por sugestão ou influência positiva do terapeuta, mas por uma solução dinâmica dos conflitos inconscientes, que se dá trazendo à consciência sentimentos,

pensamentos e impulsos que ficaram afastados da consciência. (§ 2, p.67).

O processo terapêutico pode nos ajudar ao resgate da nossa humanidade, para que a proximidade com o nosso Si mesmo, seja possível, afinal como disse Jung, “o que sou eu sem esta minha consciência individual?”.

Como psicólogo, mais do que como filósofo ou teólogo, Jung notou que esse arquétipo organizador da totalidade era particularmente bem apreendido e desenvolvido por meio de imagens especificamente religiosas, e ele, então, veio a compreender que a manifestação psicológica do Si mesmo era realmente a vivência de Deus ou da “Imagem-Deus dentro da alma humana”. (§3, p.111)

Sobre isso ele ainda diz “É preciso ocupar-se consigo mesmo, senão não há como tornar-se alguém, senão nem é possível desenvolver-se” (OC 18/II, §1813).

O objetivo do diálogo interior é em última análise este: “Quanto mais […] alguém se torna consciente de si mesmo mediante o autoconhecimento e o agir correspondente, tanto mais desaparece aquela camada do inconsciente pessoal acumulada sobre o inconsciente coletivo. Por essa via, surge uma consciência que não está mais enredada no mundo mesquinho e pessoalmente sensível do Eu, mas que participa de um mundo mais amplo, do objeto. Essa consciência ampliada não é mais aquele emaranhado sensível e egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições pessoais, que precisa ser compensado ou então também corrigido por tendências contrárias pessoais e inconscientes, mas é uma função relacional vinculada ao objeto, ao mundo, a qual transfere o indivíduo para dentro de uma comunhão incondicional, compromissiva e indissolúvel com o mundo”. (OC 7§ 275).

É preciso entrar em contato com este interno, desacelerar, se permitir simplesmente estar. Todos os dias, temos alguns caminhos a seguir; o da rotina e seu automatismo, ou colocar reparo nas coisas e se abrir para a experiência, começando por nós mesmos, sem medo.

Como diz Jung “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

Os sinos dobram e acredite, eles também dobram por ti.

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Bibliografia

BARRETO, Marco Heleno. Pensar Jung. São Paulo: Edições Loyola: Paulus, 2012.

DORST, Brigitte. Espiritualidade e Transcendência/ C.C.Jung; seleção e edição de Brigitte Dorst; tradução da introdução de Nélio Schneider – Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

HOPCKE, Robert H. Guia para a Obra Completa de C.G.Jung. 3ª ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

 

Patricia Razza
Desde dezembro de 2004 atuando na Direção Geral de uma instituição educacional e cultural na cidade de Jundiaí. Responsável por seis unidades de ensino educacional e projetos institucionais voltados para famílias de baixa renda. Um projeto que envolve 250 profissionais e 1400 crianças e jovens matriculados além dos projetos multiplicadores. Responsável pela execução do Fórum Social, um evento que envolve a participação aproximada de 200 pessoas, com temas atuais e que conta com a participação de outras entidades assistenciais. Estabelecimento de agendas de supervisão pedagógica e administrativa para fins de alinhamento da rotina de trabalho. Experiência sólida profissional envolvendo atividades relacionadas a projetos de mudança sempre com foco na sensibilização dos profissionais para atuarem como seus agentes. Gerenciamento de projetos buscando alavancar vendas e abrir mercado para empresas de pequeno e médio porte tanto no Brasil quanto no Exterior. Atuou como coaching da equipe de consultores da Deloitte Consulting FORMAÇÃO ACADÊMICA: Pós Graduação em Psicologia Analítica – FACIS/IJEP - 2015 em curso Psicologia – Politécnica Anhanguera Jundiaí – 2015 Pedagogia – EAD COC - 2011 Pós Graduação em Psicopedagogia – Faculdades Anchieta – 2006/2007 Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos – Especialista – 2000/2005 Pós graduação em Comunicação em Marketing – Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo - 1994 Letras – Universidade Hebraico Brasileira Renascença - 1980 IDIOMA: Inglês fluente - falado e escrito Espanhol - regular

21 COMENTÁRIOS

  1. Patricia texto muito bonito e uma reflexão importante para tantos transtornos que vivemos no Brasil e em todo mundo. Precisamos olhar para dentro e despertar como disse nosso grande mestre Jung. Obrigada por nos alimentar com bons pensamentos e sentimentos.

  2. Vivemos hoje em um dos diversos momentos sombrios que a humanidade já experimentou, a história da humanidade sempre teve seus altos e baixos, glórias e desgraças, crenças e descrenças, o eterno devir Ying/Yang… É do caos que nascem as melhores oportunidades. A sombra não é inimiga, não é um produto de contraste e oposto simplista, ela é complementar e se devidamente compreendida, pode se tornar uma boa professora e guia daquilo que é preciso aperfeiçoar. Desta forma, o sino bate para todos, mas seu ressoar depende daquele que ouve, e é sempre mais harmônico para aquele que tira do teu barulho uma preciosa informação.

    • Olá Dante! Concordo quando diz que é preciso saber ter o ouvido para esta escuta. Quantas oportunidades perdemos ao longo da vida por não estarmos em estado consciente e com coragem para enfrentar a nossa sombra e integra-la. Gratidão pela sua colocação.

  3. Eu gostaria de colocar apenas uma questão que sobressaiu do texto. Aparece o Inconsciente Coletivo, e eu já vi em outros textos esse mesmo sentido, como sendo o self primordial ou finalmente o encontro com seu eixo. Acho, em primeiro lugar que tanto o inconsciente pessoal, como o inconsciente coletivo eles fazem parte de um processo antes de sua, digamos, conquista do inconsciente. O inconsciente coletivo é uma caixa de Pandora e isso significa que ele pode ter as maiores riquezas e remédios, como os piores venenos. E por isso tanto ele pode salvar alguém, como pode enlouquecer alguém. Os alquimista sabiam disso. Em um processo de individuação o inconsciente pessoal, assim como o inconsciente coletivo, sabendo que eles se interpenetram, formam um campo de luta onde interagem vários complexos, vários arquétipos e de onde surgem símbolos que podem fazer alguém transcender e ganhar espaço nesse processo inconsciente. E cada um ou uma que fazem parte disso vai desvendando o seu próprio processo e reorganizando a psique para receber os eflúvios desse inconsciente coletivo, de uma forma cada vez mais límpida e/ou canalizada. Então, o que digo é importante não se criar uma idéia de que o inconsciente coletivo é algo dado e que nos leva ao céu. Mesmo sendo Matriz a linguagem do inconsciente é uma linguagem completamente diferente da linguagem do “eu” e vai nos colocar frente a frente com nossas sombras individuais e coletivas. Uma aventura, nada fácil, que muitas vezes não é feita com convite, mas como necessidade. Em todo caso, de alguma forma entrar em consonância com o inconsciente individual ou coletivo é libertador. Em todos os casos ninguém disse que ser louco é pior que ser normal. rss..rss…

    • Olá Verônica Miranda! Gratidão por suas colocações. Escrever sobre a teoria de Jung é sempre um desafio e ter pessoas como você, que bebem desta fonte e colaboram com colocações que trazem à luz mais esclarecimentos é sempre muito bom! Quanto a ser louco ou ser normal, penso que é simplesmente SER, afinal, nós é quem temos que ter claro se somos uma coisa ou outra. Aliás, concordo contigo, quem diz que uma dose de loucura não dá um tempero para a vida!

      • Olá Patricia ! Grata a você e Jung na Prática por colocar esses temas na ordem do dia e ter como debatê-los. Creio que muitos o lêem, o estudam, mas muitas vezes fora dos cursos de psicologia não há como debatê-lo. Eu já disse em um grupo de discussão sobre jung: O que seria de nós humanos ocidentais modernos sem Jung. Daí dá para perceber que o que fazemos enquanto nos individuamos tem um propósito que vai além de cada um de nós. A história é o que processo é muito profundo e em alguns casos revira a pessoa pelo avesso. É necessário muito equilíbrio e em geral a idéia massificada do que é normal, não patológico, é, de fato o “normótico” (patologia do normal). O próprio Jung passou por fases em que os filhos queriam interná-lo no hospício. Há um livro escrito por um dos filhos dele, em que narra episódios da família extremamente preocupada com Jung, quando ele passeava pelos jardins conversando calmamente com Philemon, um personagem que aparece como figura da imaginação, mas que depois ele reconhece como uma entidade autônoma, que foi muito importante no seu processo e diálogos internos. Obviamente que ele aparecia conversando sozinho pelos jardins. Então essas questões “extra-normais” tornam esses processos ás vezes estranhos. Mas, não para quem os vive. Um grande professor de Yoga já falecido dizia sempre: “Deus me livre de ser normal” Rss…Rss…

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