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O sonho do Rei Gilgamesh e a Jornada do Herói

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Era uma vez, mais ou menos 4.700 anos atrás, um rei de um país distante que se chamava Gilgamesh. Era um homem forte, alto e corpulento, além de arrogante e extremamente teimoso. O povo daquele país o temia mais do que o admirava. Ele roubava todas as noivas do lugar no dia de seus casamentos, deitando-se antes com elas do que o noivo prometido. Roubava também a vida dos rapazes, sendo muito mais forte que todos. Seu desejo vinha em primeiro lugar, e assim, não dava ouvidos aos lamentos de seu povo. Havia, além disso, algo que ele gostaria de ter e ansiava com ardor: a imortalidade. Mas antes de tentar buscá-la, um fato inusitado aconteceu em sua vida.

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Os queixumes das pessoas oprimidas pelos desejos caprichosos do rei eram tantos, que chegaram aos ouvidos de Anu, deus do firmamento, e Aruru, deusa da criação. A ela foi pedido que criasse um igual que pudesse enfrentá-lo. A deusa parte para uma receita especial: à imagem em sua mente, igual em essência a Anu, adiciona água, um pedaço de barro e uma pitada, ou melhor, uma centelha de vida. A essa mistura sopra a seguinte frase: “Que seja seu próprio reflexo, seu segundo eu; que lutem entre si e deixem Uruk (esse era o nome da cidade), que deixem Uruk em paz”.

Como era hábito entre os povos da antiguidade, os sonhos eram mensageiros de verdades a serem ouvidas com respeito, e não foi diferente nos domínios de Gilgamesh. Uma noite, o rei acordou intrigado com as imagens que lhe visitaram. Foi até sua mãe, Nunsun, em busca de esclarecimentos e relatou o seguinte:

Eu estava cheio de alegria, os jovens heróis estavam à minha volta, eu andava pela noite, sob os astros do firmamento e um meteoro da substância de Anu caiu do céu. Tentei levantá-lo, mas se mostrou muito pesado. Todo o povo de Uruk chegou em volta para vê-lo, o povo comum se acotovelava e os nobres se atropelavam para lhe beijar os pés; e para mim sua atração era como o amor da mulher. Eles me ajudaram, ergui-o com correias passadas pela testa e trouxe-o para ti; e tu mesma o declaraste meu irmão.

E a sábia Nunsun disse: Esse astro que desceu como um meteoro do céu, que tentaste levantar mas achaste muito pesado, quando tentaste movê-lo nem se comoveu, e assim o trouxeste a meus pés; eu o fiz para ti êmulo e estímulo, e foste atraído como que por uma, mulher. Esse é o forte camarada, que traz ajuda ao amigo na necessidade. É a mais forte das criaturas selvagens, a substância de Anu; nasceu nas pradarias e foi criado nas colinas selvagens; quando o vires, ficarás contente; amá-lo-ás como a uma mulher e ele nunca te faltará. Este é o significado do sonho.

E assim Enkidu, a criatura gerada, entra na história. Caiu do céu como um astro, conforme o sonho anunciara. Era selvagem como os animais da floresta, lugar onde habitava. Alimentava-se de gramíneas e libertava os animais das armadilhas dos caçadores. Até que um dia, o filho de um caçador ficou cara-a-cara com aquele ser monstruoso e quase morreu de susto. O caçador pai, experiente nos mistérios da natureza, sugeriu que enviassem ao selvagem uma prostituta sagrada do templo de Inana, deusa do amor e da guerra. Sabia do poder transformador daquele feminino. E assim foi feito. Enkidu, ao encontrar-se com a sacerdotisa, fica com ela por sete dias e sete noites, humaniza-se, e os animais com quem convivera tão de perto passam a correr dele. Ao vestir roupas de homem, até parecia um noivo!

O encontro de Enkidu e Gilgamesh foi inesquecível para todos os habitantes de Uruk. Nunca antes tinham visto nada igual! Ao se encararem, os dois homens se atracaram como touros, e foram derrubando tudo o que havia pelo caminho, gigantes que eram. Não havia nenhum obstáculo que os fizesse parar. Tudo foi ficando destruído por onde passavam. Quem seria o mais forte? A luta se estendeu até o momento em que Shamhat, a sacerdotisa de Inana que fora até Enkidu na floresta, avisou Gilgamesh que aquele com quem lutava não era outro que não o tal selvagem a quem ela fora mandada, e com quem ele já havia sonhado. Sim, porque nessa terra, há milhares de anos atrás, como já foi falado, os sonhos eram recebidos como mensagens dos deuses, e eram levados muito, muito a sério. Nesse instante, portanto, Gilgamesh entendeu que aquele era o seu igual, o visitante de seu sonho, e por quem tanto esperara. Assim que conseguiu derrubar Enkidu, sua fúria desapareceu. Enkidu, então, lhe disse: ‘Não há ninguém como tu no mundo’; e os dois se abraçaram e selaram uma grande amizade.

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Muitas coisas irão acontecer a partir daí. E todas as gestas heroicas de ambos serão pontuadas por sonhos. Gilgamesh e Enkidu partirão para muitas aventuras como dois irmãos que têm que conviver com suas diferenças e suas semelhanças. Enkidu, o selvagem, trará a Gilgamesh a oportunidade de se perceber homem, como todos os outros, e deixar de lado sua recusa em aceitar o destino humano. Como cavaleiros que matam o dragão, os dois irão ao encalço de Humbaba, o gigante do Mal e o exterminarão. Inana, a deusa do amor e da guerra passará, então, a desejar o belo rei, mas este não lhe dará a menor atenção e mesmo recusará suas seduções. Ela, furiosa, lhe enviará o touro do Céu, um animal imbatível, mas que também será morto por Gilgamesh. Com isso, Inana sentir-se-á insultada e resolverá que um dos dois terá de morrer. Enkidu será o escolhido. Essa teria sido a primeira e importante perda de Gilgamesh, e ele não será o mesmo depois disso. Ele, que tanto desejava a imortalidade, via agora a morte à sua frente. Seu amigo-irmão se fora, e ele estava só. Terá um longo caminho pela frente para se dar conta de que Enkidu era também ele próprio.

Essa incrível e fascinante história que relatei aqui ao modo de um conto de fadas, traz uma sabedoria milenar. Ela nos fala, entre outras coisas, e já no seu início, dos ensinamentos trazidos pelos sonhos. É através deles que o rei de Uruk se coloca atento ao que irá adentrar em sua vida. O sonho prepara Gilgamesh para receber o “astro que cai do céu”, e que preencherá sua vida de sentido. Este épico, registrado em tábuas de argila há quase 5.000 anos, talvez seja a primeira de todas as histórias da humanidade – escrita como se cumprisse o destino de perenizar o homem através da palavra-, e desde então vem habitando o imaginário humano.

Conta-nos também  da relação fraternal entre dois homens, Gilgamesh e Enkidu, e como cada um encarou o outro como um igual, e um diferente. Fala de como o amor fraterno se construiu na disputa, na escuta, na perda, no ganho, na cooperação, no ciúmes, na vaidade, na agressividade, na amorosidade, na guerra, numa aprendizagem a que todos nós estamos fadados, e da qual podemos tirar importantes lições.

É interessante imaginar Enkidu como um duplo interno de Gilgamesh, ou aquele diferente que nos habita. Ao olharmos dessa perspectiva, a história se amplia, assim como a nossa possibilidade de compreender os reclamos da psique.  Convido o leitor a conhecer mais desta primeira jornada descrita de um herói, a aprender com ele sobre a amizade, a força, a sensibilidade, a dor, a morte, o desejo de imortalidade, o caminho; e, claro, a respeitar e valorizar os sonhos!

Referências bibliográficas

Baptista, S. M. S.       (2008). O Arquétipo do caminho- Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas. São Paulo, Casa do Psicólogo.

Kluger, R. S.              (1999). O significado arquetípico de Gilgamesh-um moderno herói antigo. São Paulo: Paulus.

Oliveira, C. D. trad.   (2001). A epopeia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes.

Tamen, P. trad.           (1990). Gilgamesh-rei de Uruk. São Paulo: Ars Poetica.

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