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A Lua Simbólica no Mapa Natal de Jung

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As narrativas de Jung em sua autobiografia que se referem a sua mãe, sua esposa Emma e sua casa, se relacionam com a lua simbólica em seu mapa e a ligação com outro arquétipo: o da morte e renascimento- Hades o Senhor das Profundezas; Plutão.

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Jung demonstra com o processo de sua própria jornada que, aqueles que dão voz e aceitam “o mergulho” integrando aspectos do seu inconsciente e o manifestam na vida de modo criativo, tem uma existência mais plena, mais genuína. Assim ele o fez em forma de arte e imaginação. Em sua frase: “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” não só orientou a própria vida, como norteia o despertar na vida de outros nesse caminho interior.

A imagem arquetípica do Grande Feminino se encontra no âmago de todos nós, homens e mulheres na forma do inconsciente que é primordial. A lua no mapa representa essa imagem projetada.

Este olhar para dentro que despertou Jung, que representa o aspecto do feminino de sua alma a qual ele sempre foi fiel, podemos investigar a luz da astrologia.  

No mapa natal de Jung a potência do materno; a lua, está associada a potência da morte e do renascimento; plutão. Ao falar da mãe, da esposa e da própria casa ele expressa a força desses dois arquétipos no seu mapa que estão unidos no aspecto da conjunção no signo de touro.

 

A Grande Mãe e seus símbolos

A respeito da estrutura do arquétipo da “Grande Mãe” ou o Grande feminino e os símbolos individuais, Neumann explica que para compreendê-los temos que ampliar nossa observação, utilizando um grande número de ilustrações e aplicando a amplificação, que é um método da psicologia comparativa e morfológica, através do qual busca-se a interpretação de material análogo que advém das mais diversas áreas como: da história da religião, da pré-história, da arqueologia, da etnologia e aqui faremos através da sabedoria milenar da astrologia.

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Para mostrar as imagens interiores projetadas; ligadas a estruturas arquetípicas do inconsciente Neumann exemplifica a figura assustadora da Górgona, cuja cabeça é coberta por víboras serpenteantes e cujo o olhar petrifica sua vítima, é uma projeção da Mãe “Terrível” enquanto que a figura de Sofia é uma projeção da Mãe “Bondosa”. A figura de Ísis, que une em si os traços da Mãe Terrível e da Mãe Bondosa, corresponde, portanto, ao arquétipo da Grande Mãe e sua polaridade.

Frida Kahlo (Mexican, 1907-1954). The Love Embrace of the Universe, the Earth (Mexico), Diego, Me and Señor Xólotl 1949. Oil on canvas. 27 1/2 x 23 7/8 in. (69.9 x 60.6 cm). The Jacques and Natasha Gelman Collection of Mexican Art.

Seguindo ainda as imagens, indo mais além, podemos encontrar na sua composição indicações do arquétipo primordial do “Grande Feminino” e do “Uroboros”; imagem da serpente circular que morde a própria cauda, sendo o símbolo do estado psíquico inicial e da situação primordial, em que a consciência e o ego do ser humano ainda são infantis e não desenvolvidos.

Porém, o símbolo espiritual predileto da esfera matriarcal como afirma Neumann é a lua, correlação com a noite e com a Grande mãe do céu noturno.

O ciclo lunar possui uma mitologia característica e conhecida por muitos em nossa cultura e reflete uma experiência humana arquetípica. A lua tem um ciclo que evidencia a ligação com o “destino” e com a repetição do ciclo universal de nascimento, crescimento e morte.  

O ciclo da lua em torno da terra tem relação com o ciclo menstrual da mulher. Em várias línguas a palavra menstruação e lua são as mesmas ou estão associadas. A palavra menstruação significa “mudança da lua” e “mens” significa lua. Alguns camponeses alemães chamam o período menstrual de “a Lua”. Na França é chamado de “le moment de la luna“. 

As fases da lua: nova, crescente e cheia, são três aspectos das divindades lunares; geralmente femininas. As imagens evocadas que correspondem a lua nova ou lua negra se associam à morte, à gestação, à feitiçaria e a deusa grega Hécate. A lua crescente, com sua forma de tigela; receptiva, pronta para conceber, está associada com as deusas Perséfone e Ártemis: a primeira; esposa raptada por Hades e a segunda; a caçadora virgem. (Greene, 1994, p.6)

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A lua cheia está plena, é associada à Deméter, deusa da colheita e da fertilidade, é o ápice do ciclo lunar. Após seu apogeu, ela começa a minguar até desaparecer, quando novamente Hécate, que estava oculta, toma seu poder recomeçando o ciclo.

Em antigos livros indianos encontramos referências repetidas à lua sob o nome de “Rei Soma”. Este nome hindu é interessante, a mesma palavra soma, em grego significa corpo, e dela são derivados muitos termos científicos modernos que se referem ao corpo. O Rei Soma, ou Lunnus, é de fato, regente de todas as atividades relacionadas com a geração, manutenção e reprodução do corpo e de todos aqueles elementos da psique que são orientados no sentido das necessidades da vida exterior. Ele é a força masculina no homem e a força feminina na mulher. (Rudhyar, 1976, p.58)

A lua, o Mapa e Jung

A lua no mapa astrológico no sentido genérico, diz respeito ao inconsciente pessoal, nossa imaginação, nossas reações emocionais, em como nos sentimos confortáveis, a relação com a mãe, o lar emocional e a casa no aspecto material, a nutrição física, aspectos da saúde ligados ao psicossomático e a memória afetiva além de apontar para os nossos complexos mais inconscientes.

Para a análise individual da lua no mapa com seus significados específicos, é necessário identificar parâmetros no mapa tais como: a lua nos signos, nas casas e os aspectos que são as ligações entre os planetas: quadraturas, oposições, conjunções, etc; como se fossem conversas entre os deuses que podem ser em tom harmônico ou desafiador.

A lua está no signo de touro e na terceira casa zodiacal no mapa de Jung. A lua está na linguagem astrológica em “exaltação” no signo de touro cujo elemento é terra, associado à estabilidade e segurança, valores tradicionais, prazeres sensoriais, sentimento de posse e capacidade de gerar. As 12 casas representam áreas de experiência da vida. A terceira casa onde a lua de Jung se encontra corresponde ao domicílio do Deus da comunicação que é Hermes na Grécia e Mercúrio em Roma, esta casa está associada ao planeta mercúrio. “Tradicionalmente os astrólogos associaram a terceira casa com a mente concreta e seu oposto complementar, a casa nove, com a mente abstrata. (…) Aqueles que tem a lua nesta casa podem procurar conhecimento pela segurança que este os propicia, pelo sentido de proteção e bem estar que adquirem ensinando como alguma coisa funciona.” (Sasportas, 1985, p.47)

Um aspecto importante da lua no mapa de Jung é a conjunção com o planeta plutão. Plutão está no mesmo signo da lua: touro, com uma diferença menor que dez graus entre eles, o que caracteriza um aspecto de conjunção. Puigros afirma: “A relação plutão – lua simboliza de modo perfeito o arquétipo de mãe terrível que é encontrado em várias tradições, como, por exemplo, a deusa hindu Kali. O poder de, por um lado, nutrir seus filhos e, por outro, devorá-los constitui uma imagem muito significativa. Trata-se do poder de dar e tirar a vida.” (Puigross, 1990, p.130) Nesse depoimento, podemos observar a ambiguidade da lua em touro (estabilidade) em conjunção com plutão (desapego) no mapa de Jung. A lua apesar de se encontrar num signo com características de bom anfitrião, pacíficas, dóceis e obedientes, está em aspecto uno, conjunto com o planeta associado à morte, poder, destruição, extremos e regeneração; o planeta plutão é regente do signo de escorpião que é signo oposto e complementar de touro: Minha mãe foi extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto, profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente; permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava muito bem e tinha muito senso de humor. Partilhava de todas as opiniões tradicionais, revelando porém repentinamente, uma personalidade inconsciente de poder imprevisto – um aspecto sombrio, imponente dotado de uma autoridade intangível. Tal fato era inegável e creio que ela também possuía duas personalidades: uma inofensiva e humana; a outra, pelo contrário, parecia temível. Esta última só se manifestava em certos momentos, mas sempre inesperadamente, e me causava medo. Falava, então, como que consigo mesma e suas palavras me atingiam profundamente, de tal maneira que em geral ficava calado.” (Jung, 2012, p.80,81)

A lua simbólica na astrologia representa a mãe, o inconsciente e nosso contato com a intuição. Plutão está em analogia com os poderes ocultos do submundo, em referencia ao mito de Hades. O contato plutão- lua como é analisado por Puiggros, contempla tais características que podemos observar na relação de Jung com a imagem materna: “Pode desenvolver uma sensibilidade extrema e despertar suas faculdades psíquicas. Exposto a essas influências o indivíduo pode apresentar sonhos proféticos e premunições. Muita curiosidade, imaginação e interesse em relação a tudo o que representa poder de modificação e regeneração. De modo geral, não hesita em aplicar todas essas habilidades aos assuntos diários e em estimular suas relações pessoais. (…) O indivíduo costuma estar atento, acumula saber e o guarda. A capacidade de intuir e a facilidade em separar o joio do trigo, aliadas a uma grande subjetividade (…)” (Puiggros, 1990, p.131) Na fala a seguir, Jung também faz relação da personalidade da mãe com sua própria característica intuitiva:

Havia uma notável diferença entre as duas personalidades de minha mãe. Quando criança, tive sonhos de angústia motivados por ela. Durante o dia, era uma mãe amorosa, mas de noite a julgava temível. Parecia então uma vidente que ao mesmo tempo é um estranho animal, uma sacerdotisa no antro de um urso, arcaica e cruel. Cruel como a verdade e a natureza. Era a encarnação de uma espécie de natural mind. Reconheço em mim também algo dessa natureza arcaica. De minha mãe herdei o dom, nem sempre agradável, de ver homens e coisas tais como são. Naturalmente posso enganar-me redondamente quando não quero reconhecer algum detalhe, mas no fundo sempre sei do que se trata. O “conhecimento real” está ligado a um instinto, à participation mystique com o outro. Pode-se dizer que é o “olhar mais profundo” que vê, num ato impessoal de intuição.” (Jung, 2012, p.83)

A casa e os antepassados também estão em analogia com a lua, e as características e impressões que ele refere a mãe podemos associar ao lar e a casa no sentido físico. Campbell e sua mulher visitaram Jung no ano de 1954 em sua casa em Ascona; em Mito e Transformação, ele descreve a forte impressão que teve ao conhecer aquela casa a qual chamou de “grandiosa”: Nascera naquele lindo país montanhoso. Ali, ele estava perto da terra. Seus antepassados, especialmente do lado da mãe, eram do interior da Suiça. O avô viera da Alemanha e era curandeiro, mas também a Alemanha, naquela época, constituía-se de uma cultura rural. E ele tinha muito desse mundo camponês.” (Campbell, 2008, p.118)

 

Jung faz a relação direta da mãe com a casa: “Era uma cabana deste gênero que eu iria construir, uma morada que correspondesse aos sentimentos primitivos do homem. Ela deveria oferecer uma sensação de refúgio e de abrigo, não só no sentido físico, mas também psíquico. (…) Era poderoso o sentimento de renovação que a torre despertara em mim desde o início. Constituía como que uma morada materna.” (Jung, 2012, p.271)

Plutão tem sua morada no Hades, ele rege o inframundo, a morada dos mortos e as entranhas da terra e touro é um signo de terra. Com Plutão no signo de touro no mapa de Jung, em conjunção com a lua podemos nos reportar a imagem de Perséfone nas profundezas do Hades, o que está sob a terra tende a sair para o exterior, é o tempo em que Perséfone retorna à superfície. Trata-se da realização na prática, como fez Jung com sua própria casa; de uma obra que evoca a ancestralidade e suas necessidades mais profundas.

Puiggros fala da natureza de plutão: “Nascer implica crise, assim como renascer. A tendência que todos demonstramos de nos prolongar a nós mesmos – em nossos filhos, em nossas obras, e o desejo inconsciente de nos perpetuar implicam seguir o processo vital em sua totalidade, isto é o processo de regenerar-se. Morrer para viver de novo, tal como na fábula da Fênix, que renasce das cinzas. Essa dualidade, vida e morte, expressa de maneiras muito diversas, é consubstancial com a natureza de plutão” (Puiggros, 1190, 36)

A Morte de Emma

Após a morte da esposa Emma, Jung ficou em recolhimento e falava com poucas pessoas, porém, fez uma homenagem a mulher e ao mesmo tempo expressou seu próprio processo de regeneração emocional que a lua conjunto plutão aponta, como obra de arte; emoção no sentido da demonstração física; lua em touro (elemento terra), e o poder de regenerar; plutão. Bair conta que: “Um dos primeiros atos positivos em que ele se envolveu foi esculpir para Emma a pedra que ele tinha intitulado O vas insigne devotione et obedientia. A tradução livre da gravação era a mesma expressão que ele repetia a todos que iam lhe expressar condolências: Ela era a fundação de minha casa.” (Bair, 2006, p.269) “Assim, um ano após a morte de minha mulher, o conjunto estava completo.

A construção da primeira torre começara em 1923, dois meses após a morte de minha mãe. Essas datas são cheias de sentido porque –como veremos- a torre está ligada aos mortos. (…) A torre dava-me a impressão de que eu renascia da pedra. Nela via a realização do que, antes, era um vago pressentimento: uma representação da individuação. Um marco, aere perennius. Ela exerceu sobre mim uma ação benfazeja, como a aceitação daquilo que eu era. (…) Em Bolligen sou mais autenticamente eu mesmo, naquilo que me concerne. Aquí sou, por assim dizer, um filho “arquivelho” de sua “mãe”. Assim fala a sabedoria dos alquimistas, pois o “velho”, o “arquivelho” que eu sentira em mim, quando criança, é a personalidade numero dois que sempre viveu e sempre viverá, fora do tempo, filho do inconsciente materno.” (Jung, 2012, p.273)

Jung revela nessa fala a profundidade de sua alma que se confunde com sua casa e sua ancestralidade, sua vida e finitude, refletindo a expressão plena dos arquétipos lua-plutão: “Na minha torre, em Bolligen, vive-se como há séculos. Ela durará mais do que eu; sua situação e seu estilo evocam tempos que há muito já passaram. (…) As almas de meus ancestrais são mantidas pela atmosfera espiritual da casa, pois respondo, bem ou mal, às questões que suas vidas deixaram em suspenso; desenhei-as nas paredes. É como se uma grande família silenciosa, ao longo dos séculos, povoasse a casa. Lá vivo meu personagem número dois, e vejo amplamente a vida que se cumpre e desaparece.” (Jung, 2012, p.286)

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Referências Bibliográficas

BAIR, DEIRDRE. Jung: uma biografia, vol 2. São Paulo: Ed. Globo, 2006.

CAMPBELL, JOSEPH. Mito e Transformação. São Paulo: Ed. Ágora, 2008.

GREENE, LIZ .; SASPORTAS, HOWARD. Os Luminares: a psicologia do sol e da lua no horóscopo: seminários sobre astrologia psicológica, vol 3. São Paulo: Ed. Roca, 1994.

JUNG, C. G. Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2012.

JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

NEUMANN, ERICH. A Grande Mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006.

PERERA, S. BRINTON. Caminho para a iniciação feminina. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.

PUIGGROS, PERE. Plutão. São Paulo: Ed. Pensamento, 1990.

RUDHYAR, DANE. A astrologia e a psique moderna: um astrólogo analisa a psicologia profunda. São Paulo: Ed. Pensamento, 1976.

SASPORTAS, HOWARD. As Doze Casas: Uma interpretação dos planetas e dos signos através das casas. São Paulo: Ed. Pensamento, 1985.

STEIN, M. Jung – O Mapa da Alma, uma introdução. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006.

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