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Astrologia Simbólica na Prática – O Retorno de Saturno como exemplo dos Ciclos de Desenvolvimento Pessoal

A mudança na abordagem da astrologia depois de Jung. A análise do mapa como orientação nos períodos críticos da vida, o exemplo do ciclo de saturno.

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A Astrologia antes e depois de Jung

Podemos dizer que a astrologia é um dos saberes mais antigos do mundo, desde que o homem começou a olhar com fascínio e temor para o céu e observar os ciclos da lua e o aparente movimento do sol e das estrelas esse conhecimento vem evoluindo em diferentes perspectivas. Os arqueólogos encontraram vestígios do estudo da astrologia em todas as civilizações antigas como a China, Índia, Babilônia e Grécia há mais de 5.000 anos.

No início, os antigos acreditavam que as estrelas eram Deuses que controlavam nosso destino, atribuindo a elas nosso infortúnio ou boa sorte. Hoje é diferente, na medida em que ampliamos a consciência não culpamos mais o mapa por escolhas que fazemos, ele serve a uma compreensão mais ampla de nossos processos psíquicos e movimentos na vida.

As estrelas errantes, que hoje conhecemos como planetas, foram batizadas com os nomes das divindades gregas mercúrio, vênus, marte, jupiter e saturno. Na modernidade, os astrônomos continuaram a batizar os outros planetas descobertos com nomes dos deuses olímpicos; urano, netuno e plutão. Hoje Plutão não é mais considerado um planeta, porém ele continua a ser analisado no mapa natal como o arquétipo da morte e renascimento.

A astrologia e astronomia caminhavam juntas, conhecer as estrelas e associar o movimento delas a um impacto na vida do indivíduo e da coletividade na terra era muito natural.  A partir do séc XVII com o advento do iluminismo, movimento social e político, há uma mudança, além da oposição ao absolutismo dos reis a ciência vai duvidar desses fenômenos, vai por tudo a prova, terá uma ambição em conhecer a verdade se opondo aos dogmas da igreja, aos mistérios da fé e as crenças de todo tipo, nesse contexto a astrologia se inseriu como crendice popular.

Renée Descartes foi representante da Revolução Científica e defensor da teoria de que o homem vem ao mundo isento de idéias preconcebidas, diferente do racionalista, compreendemos nesse tempo o conceito de arquétipos e realidade da psique proposto por Jung. Sabemos que tudo o que faz parte da nossa realidade deriva das imagens psíquicas. O mérito da astrologia está em revelar nossas estruturas internas através das imagens simbólicas contidas no mapa.

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Jung diz que a astrologia merece o reconhecimento da psicologia sem restrições, pois ela representa a soma de todo conhecimento psicológico do mundo antigo.

No séc XX após a década de trinta, a astrologia tomou um rumo mais psicológico, o determinismo centrado nos acontecimentos, começou a ceder lugar à análise centrada na pessoa. Antes, o mais interessante era o acontecimento, depois de Jung o sujeito e sua vida interior passaram a ser o foco de interesse. O pioneiro deste movimento chamado de astrologia humanista foi o francês Dane Rudhyar, que após ler alguns livros de Carl Jung traduzidos para o inglês, deu início a análise psicológica do mapa natal em analogia com os conteúdos da psicologia analítica. Uma astrologia dinâmica que busca um sentido nas ações humanas onde a linguagem simbólica representa não um determinismo dos deuses e sim o princípio da sincronicidade com a máxima: “Assim como é em cima é embaixo”.

A partir dessa nova compreensão a pessoa busca entender o momento que está passando como um processo de desenvolvimento psíquico onde ela pode identificar suas vulnerabilidades e potencialidades, reconhecer suas limitações e iniciar seu processo de transformação, integrando seus aspectos inconscientes que estão simbolizados no mapa.

A mandala astrológica aponta às direções, os caminhos de vida através de uma linguagem simbólica que é própria da astrologia, porém tem fluente dialética com os elementos da psicologia analítica. Podemos dizer que o mapa permite uma projeção da psique, assim como nossos ancestrais simbolizavam suas questões da vida no céu na forma dos mitos das constelações.

Astrologia e os Ritos de Passagem – O exemplo do Ciclo de Saturno

O renomado astrólogo e psicólogo, o escritor Stephen Arroyo inspirado em Jung se dedica a astrologia como instrumento de orientação psicológica. Ele cita Joseph Campbell que ensina que o mito tem três funções essenciais: provocar um sentimento de temor respeitoso, originar uma cosmologia e iniciar o indivíduo nas realidades da sua própria psique, Arroyo afirma que o uso adequado da astrologia preenche todas essas três funções. Ele relata ainda por sua prática de vários anos de atendimento, o que qualquer pessoa como eu que vivencio a astrologia pode comprovar:

“A astrologia pode fornecer a chave das iniciações (isto é, dos períodos cruciais de confrontação e crescimento acentuados) que ocorrem na vida de todas as pessoas, um padrão e uma necessidade que são ignorados pela cultura ocidental.”

Assim como a lua inicia seus ciclos todos os meses os planetas também tem os seus. Os ciclos planetários representam períodos críticos de grande transformação e uma orientação para aquele que atravessa essa fase da vida pode trazer clareza e dinamismo ao processo de individuação; um tornar-se quem se é verdadeiramente, integrando aspectos do inconsciente e ampliando as fronteiras do eu.           

                                                                                            Em termos práticos, vamos para o exemplo do planeta saturno: se você completou 29 anos, experimentou o retorno de saturno que é um ciclo planetário que ocorre nessa idade. Outros ciclos com significados distintos ocorrem em idades pontuais, por exemplo, a oposição de urano (a metade do ciclo de urano) aos 42 anos, o retorno de júpiter aos 12, 24, 36, 48, e outros ciclos importantes que impõe desafios marcando etapas importantes.

Os planetas tem um ciclo em torno do zodíaco e eles ocorrem na mesma idade para todas as pessoas.  Explicando de outra forma; a configuração do mapa de nascimento é fixa, mas os planetas continuam em movimento e cada um deles tem períodos diferentes para passar por todos os signos até que retorna ao signo que estava quando você nasceu, então ele completa sua volta.

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A metade de um ciclo maior também tem um significado importante.  No caso do saturno, o planeta pode estar em qualquer uma das doze casas do seu mapa de nascimento, independente disso ele vai levar cerca de dois anos e meio em cada casa e depois de 29 anos aproximadamente ele volta a casa e ao grau do signo que ele estava quando você nasceu, então ele terá completado o ciclo de 360° pela sua mandala.

Qual o sentido psicológico desse ciclo, e o que ele representa?

Independente dos aspectos (ligação entre os planetas por ângulos) que ele (saturno) faça com os outros planetas (Vênus, mercúrio etc.) que são diferentes em cada mapa o planeta aponta para um princípio básico de experiência, ele é um arquétipo.

Vamos recordar a mitologia, no primeiro momento, saturno com sua foice define uma situação, foi o único filho de Gaia que se uniu a mãe e aceitou deter o poder do pai Urano.  No segundo momento por causa do medo do destino nefasto revelado pelas Eríneas após ele ter castrado o próprio pai, passa a devorar os filhos evitando assim o risco da perda do poder, mas a profecia foi cumprida e ele é então destronado pelo filho. Por causa do medo ele se torna tirano e perde a potência, o que ele mais temia aconteceu.

Saturno tem ressonância com o elemento terra, simboliza no mapa a busca pela estabilidade e aponta para uma definição de situações que não tem base para continuar. As várias situações podem ser um trabalho, uma relação afetiva, uma parceria, um casamento. A casa da mandala onde saturno está e seus aspectos com outros planetas irão particularizar a experiência.

Se algo terminou nesse ciclo, sugere que faltou estrutura e maturidade para seguir em frente, saturno denuncia as bases frágeis. Algumas pessoas experimentam a morte de alguém que representava uma estrutura em sua vida; o pai, o avô, o tio, o chefe, o irmão etc. A perda do apoio pode resultar em medo diante dos desafios da vida adulta, a pessoa pode se desestruturar emocionalmente ou ela irá se apropriar dos ensinamentos e toda a estrutura que vivenciou na figura dessa pessoa para seguir adiante.

O velho sábio, o senex, pai estruturante ou terrível, a sombra, seja qual for o arquétipo, saturno representa esse chamado a maturidade e responsabilidade por nossos atos. Muitas pessoas nessa fase saem da casa dos pais, se casam, separam, tem filho, se especializam em seu campo profissional almejando mais poder, estabilidade financeira e reconhecimento, mas principalmente, assumir responsabilidade social, por sua própria vida e pela vida dos outros de modo autônomo parece ser o grande chamado desse ciclo representando um rito de passagem para a maturidade.      

A experiência de Saturno; da limitação ao senso de limite – O exemplo de Isaac Newton e Carl Jung

Na astrologia medieval esse planeta era conhecido como o “grande maléfico”, pois um dos seus princípios é a limitação, sim, saturno é o segundo maior planeta do sistema solar, o primeiro tem o nome do filho que o destronou, júpiter. Saturno representa o limite do sistema solar visível a olho nu, a partir dele temos que usar lentes especiais para visualizar urano, netuno e plutão. A nossa visão física tem limites, é saudável reconhecer isso, não por acaso foi um capricorniano (signo regido por saturno) que inventou o telescópio trazendo a mensagem que diante do limite temos que nos capacitar e nos superar integrando nossa sombra do medo do fracasso. O físico Isaac Newton era astrólogo e foi o pai da astronomia moderna.

A realização no mundo tão almejada é expressa no mapa natal por nosso saturno pessoal e a décima casa é a parte mais alta da mandala astrológica. A expressão construtiva de saturno seria a noção saudável de limite, aceitação dos deveres e responsabilidades, paciência, organização, autonomia, confiabilidade e competência. A expressão negativa seria a autolimitação, inibição, medo incapacitante, negatividade constante (se antecipar somente às possibilidades de fracasso ou perigo) e rigidez.          

Voltando ao capricorniano Isaac Newton, disse o cientista certa vez essa frase: “Se vi mais longe, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes”. Reconhecer bases firmes onde se estruturar para crescer o máximo possível é um atributo de capricórnio, signo regido por saturno. Na passagem do retorno de saturno em seu mapa, Jung fazia uma pesquisa experimental com o teste de associação de palavras que originou a teoria dos complexos, base da sua psicologia, e terminava um estudo na França com Pierre Janet, uma autoridade no conhecimento das desordens mentais e psicológicas.

Interessante analisar a trajetória profissional de Jung a partir dessa perspectiva do simbolismo de saturno que em seu mapa ocupa a primeira casa; o campo da experiência onde os projetos se iniciam e a personalidade se afirma. Jung reviu e alterou vários de seus conceitos, mas a teoria dos complexos se manteve estruturada tal como foi criada.

No caso do mapa de Jung podemos observar Saturno em seu primeiro ciclo completo apontando para criação de bases sólidas para o crescimento, onde ele nesse período iniciou seu processo de construção e autonomia como profissional.

REFERÊNCIAS
Arroyo, Stephen. Astrologia, psicologia e os quatro elementos. São Paulo: Editora Pensamento, 1993.
Campbell, Joseph. O desenvolvimento histórico da mitologia. In: H. A. Murray (org.), Myth and mythmaking. Nova York: George Braziller, 1960.
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4 COMENTÁRIOS

  1. Muito interessante, não é a toa que para alguns a astrologia foi considerada a primeira psicologia, no momento no qual os homens olhavam para os céus e sabiam dizer qual profissão cada um mais se encaixava e etc.

    Excelente artigo 🙂

    • Sim Art é verdade! Hoje a astrologia é sim uma ferramenta para a análise vocacional, porém temos muito mais diversidade profissional que no mundo antigo. Diante de tantas possibilidades é aceitável que a pessoa fique confusa.

      A análise astrológica hoje não define profissão, ela ilumina as aptidões e revela os talentos em um contexto muito mais amplo que possa apontar para uma vida com sentido. O mérito do simbolismo astrológico é o autoconhecimento para a realização do si mesmo. Abraço fraterno!
      Cláudia Rabelo.

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