A Abundância e o Inconsciente

A Abundância e o Inconsciente

2552
2
COMPARTILHAR

A ideia de abundância da filosofia à física quântica

“A física quântica descobriu que os átomos físicos são constituídos de vórtices de energia, que giram e vibram constantemente. Cada átomo é um centro que gira e irradia energia e cada um deles tem uma assinatura (movimento) e constituição (moléculas) próprios. Por isso emitem coletivamente padrões de energia que podem ser identificados. Todo material no universo, incluindo você e eu, irradiamos uma assinatura energética única.” – Bruce Lipton

Esta ideia, a de abundância é usada por diversas perspectivas e aqui para efeitos de reflexão usaremos três conceitos que de certo modo convergem entre si criando a possibilidade de podermos analisar posteriormente sua relação com o inconsciente e com a arteterapia num sentido geral.

A palavra “abundância” soa estranho num universo onde a ciência cartesiana opera com predomínio. O conceito de escassez a priori seria o contraposto de abundância e é observadamente cultivado pelas sociedades. Podemos ver no dicionário Houaiss, o termos escassez como significando “falta de um bem ou serviço em relação à sua necessidade”. De certa forma traduz o mundo em que vivemos: um lugar onde há a falta de atendimento, seja por falta de recursos ou por outros motivos, das necessidades e desejos das pessoas, o que as leva a caminhar pela vida como que oprimidas e sem a percepção do trabalho como algo de valor que poderia ser objeto de edificação da personalidade e da capacidade do ser em oferecer ao mundo aquilo de que melhor possui.

A física quântica e a biologia da crença

Quero iniciar este assunto mencionando o experimento da dupla fenda que deu origem a todo um movimento novo de descobertas. Trata-se da experiência de física quântica que mostra um curioso comportamento de elétrons ao serem projetados na fenda simples e dupla.

Na prática a questão toda é com a luz. Se lançarmos partículas através de uma parede com uma fenda simples, teremos a marcação posterior na parede de trás e o mesmo se dará com a fenda dupla, como pode ser visto nas figuras 1 e 2.

Interferência”, imagem extraída do filme: Experimento da Fenda Dupla. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=GXKfw5nZREQ. Último acesso em: 21/08/2018

Figura 2 “Modelo de Interferência”, imagem extraída do filme: Experimento da Fenda Dupla. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=GXKfw5nZREQ. Último acesso em: 21/08/2018

No entanto se esse mesmo experimento for feito com ondas, elas atravessam a fenda e depois marcam a parede de trás com maior intensidade diretamente da linha da tira, formando uma marcação parecida com o da partícula. Mas ao adicionar a segunda fenda, se o topo de uma onda encontra a parte de baixo de outra onda, elas se anulam, criando um modelo de interferência na parede de trás, onde várias linhas são verificadas e não somente duas. Então quando atiramos matéria através de duas fendas, formam-se duas linhas, e com ondas se cria um modelo de interferência com muitas linhas.

Figura 3 “As Ondas se Anulam”, imagem extraída do filme: Experimento da Fenda Dupla. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=GXKfw5nZREQ. Último acesso em: 21/08/2018

Figura 4 “Modelo de Interferência”, imagem extraída do filme: Experimento da Fenda Dupla. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=GXKfw5nZREQ. Último acesso em: 21/08/2018

Ao disparar elétrons, que de forma básica seriam considerados partículas, pela fenda simples, criam uma única marcação na parede, no entanto na dupla fenda criam o modelo de interferência características das ondas. Os físicos testaram lançar um elétron de cada vez para poder saber o que estava acontecendo e depois de algum tempo o mesmo modelo de interferência apareceu. A ideia é que o elétron sairia como uma partícula, se transformaria numa onda, interferindo consigo mesmo e depois voltando a ser partícula, atingiria a parede. Mas isso é muito estrando pois a partícula passaria pelas duas fendas, por nenhuma e só por uma e só por outra ao mesmo tempo, sobrepondo todas essas possibilidades.

Os cientistas resolveram observar e colocar um medidor para saber por qual fenda o elétron realmente passa e o resultado os surpreendeu sobremaneira. Ao observar, o elétron voltou a se comportar como uma partícula formando na parede somente duas linhas.

Figura 5 “O Observador”, imagem extraída do filme: Experimento da Fenda Dupla. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=GXKfw5nZREQ. Último acesso em: 21/08/2018

Assim foi o mergulho inicial neste universo de possibilidades que é a física quântica, onde o observador interfere no experimento.

Ainda sobre a ideia de interferência podemos citar as crenças e sua relação com a biologia e para isso devo citar o biólogo Bruce Lipton que diz que o que pensamos, temos como crença, influencia nossas células e por consequência todo nosso corpo.

Pensamentos, que são a energia da mente, influenciam diretamente a maneira como o cérebro físico controla a fisiologia do corpo. A “energia” dos pensamentos pode ativar ou inibir as proteínas de funcionamento das células […]. (LIPTON, 2007, p.147)

É notório que as emoções são influenciadas e influenciam o meio ambiente, assim como os pensamentos e ações. A densidade da matéria é dada pela concentração de átomos, células e moléculas. Quanto maior a concentração, maior a densidade e o inverso é válido.

A relação entre matéria e energia já foi expressa por Einstein em 1905 através da fórmula: E = mc2. O pensamento ocidental separa matéria de energia como se fossem duas espécies inteiramente diversas de realidade. Mas ambos são totalmente inseparáveis e todo objeto tem certo tipo de energia.

A realidade é abundante

A realidade abundante trata, a partir do pensamento de Paul Feyerabend, a riqueza do ser, as várias realidades existentes e inesgotavelmente possíveis no mundo em que habitamos. Contrapõe a ideia da razão que emoldura, diminui as diferenças para “uma” realidade como sendo “a” realidade.

Relaciona-se com as diversas possibilidades de manifestação do ser.

Nosso mundo é sempre interpretado. Segundo Feyerabend: “Não há “fatos nus”; estando os fatos sempre sujeitos à contaminação fisiológica e histórico-cultural da evidência.” (FEYERABEND, 1977, p.20).

É possível a existência de realidades diferentes. Na introdução de seu livro ‘A Conquista da Abundância”, Feyerabend (Cf. FEYERABEND, 2001, p.3-4) diz que é uma bênção que apenas uma fração da abundância do mundo afete a nossa mente. Uma superconsciência não nos deixaria supersábios, mas paralisados. Graus mais elevados de consciência ficam, deste modo abertos e não encerrados nos limites das possibilidades. Sobre o conhecimento Feyerabend comenta:

O conhecimento, concebido segundo essas linhas, não é uma série de teorias coerentes, a convergir para uma doutrina ideal; não é um gradual aproximar-se da verdade. É, antes, um oceano de alternativas mutuamente incompatíveis (e, talvez, até mesmo incomensuráveis), onde cada teoria singular, cada conto de fadas, cada mito que seja parte do todo força as demais partes a manterem articulação maior, fazendo com que todas concorram, através desse processo de competição, para o desenvolvimento de nossa consciência. Nada é jamais definitivo, nenhuma forma de ver pode ser omitida de uma explicação abrangente. (FEYERABEND, 1977, p.21).

A consideração de outras alternativas, opções, acerca das coisas requer uma mente aberta, capaz de analisar e estar disposta a conceber novas formas, não fixas e não presas às formas já estabelecidas.

O encontro de significado

As pessoas buscam, em última instância, adquirir valor e significado em suas vidas. Nesse sentido há uma eterna procura da felicidade, onde se teria sempre o sentimento de prazer presente. O conceito de abundância, como a atitude recorrente de encontrar significado na vida, não é novidade. Em seu livro ‘Em busca de sentido’, Victor Frankl (Cf. FRANKL, 1987, p.4) diz que a neurose surge da frustração do desejo de sentido e significado.

O vazio ou vácuo existencial é algo comum nessa nossa sociedade consumista.  A projeção da carência de significado se revela em nossa sociedade através das compras desenfreadas, uma sociedade de consumo que procura preencher seu vazio interno pelo ter, ter e ter, esquecendo-se da busca pelo ser, esquecendo-se de si mesmo, talvez com medo de encarar os monstros escondidos, os dragões que cospem fogo e que inevitavelmente iriam queimar suas falsas buscas gerando mortes e transformações.

O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio. Agora podemos entender por que Schopenhauer disse que, aparentemente, a humanidade estava fadada a oscilar eternamente entre os dois extremos de angústia e tédio. É concreto que atualmente o tédio está causando e certamente trazendo aos psiquiatras mais problemas de que o faz a angústia. E estes problemas estão se tornando cada vez mais agudos, uma vez que o crescente processo de automação provavelmente conduzirá a um aumento enorme nas horas de lazer do trabalhador médio. Lastimável é que muitos deles não saberão o que fazer com seu tempo livre. (FRANKL, 1987, p.74).

A vida se reinventa a cada momento.  Não podemos ter uma solução única para todas as situações da vida, nesse sentido a própria vida parece criar significado para existência das pessoas, para que elas possam reconhecer esse sentido da vida nos trazendo, assim, responsabilidade perante a própria vida e perante nós mesmos, nossa função. Qual a função de cada um?  O que dá a cada um motivo pra viver?  Essas perguntas vão sendo naturalmente respondidas pela própria vida, que guia os passos de cada ser humano no sentido de uma satisfação plena, mesmo que aparentemente não seja o caminho certo.

A abundância nesse sentido tem a ver com autorrealização, e assim como nos diz Frankl (Cf. FRANKL, 1987, p.74), está intimamente ligada à ajuda, a servir, a contribuição que cada um pode oferecer ao mundo.

Mais do que encontrar um sentido para vida é realizar-se a si mesmo.  A contribuição de Jung nessa esfera de conhecimentos é incomensurável, pois ele nos fala através do conceito de processo de individuação da possibilidade de autorrealização, não a autoconscientização que estaria ligada ao ego, mas no sentido de realização profunda, de existência própria, onde se pode expressar: eu sou!

Essa visão de totalidade que Jung nos mostra não exclui o mundo, numa tentativa de se manter isolado, mas sim nos insere no mundo, pelo sentido de responsabilidade por todas as pessoas, pelo mundo inteiro, uma vez que se reconhece a interligação presente entre todos, com a natureza.  O servir passa a ser natural, não uma obrigação, um dever, realizado com prazer para ver cumprido o propósito de todos através da realização do propósito de cada um, como bem coloca Carl. G. Jung:

[…] o self compreende infinitamente muito mais do que apenas o ego, como no-lo mostra o simbolismo desde épocas imemoriais: significa tanto o self dos outros, ou os próprios outros, quanto o ego. A individuação não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba. (JUNG, 2006, p.83).

A busca por significado nos leva ao confronto com nossos demônios ou até mesmo à fuga deles. O sentido da vida nos persegue e é necessário conquistar esta etapa do desenvolvimento para quem sabe poder dar novos passos no sentido de sermos seres mais realizados, portanto capazes de melhor contribuir com o mundo, assim como considera Jung (2006, p. 83): “Talvez seja a primeira etapa do caminho de uma longa evolução que deve ser percorrida por uma humanidade futura”.

A natureza abundante do inconsciente

O inconsciente não pode ser medido. Uma vez que tenha medidas, deixa de ser inconsciente. Todas as potencialidades estão presentes em seus domínios. A energia psíquica em si move o mundo, move os mundos, todas as realidades, um universo de infinitas possibilidades. Cada elemento do inconsciente é de característica bipolar, ou seja, contém tanto as possibilidades do bem, quanto as do mal, o que vai determinar entre um polo e outro é aquele que julga, que discrimina, o ego ou como na física quântica, o observador.

Para Sanford, o bem e o mal estão presentes em nós, como vemos no seguinte trecho:

[…] a sombra, com todo o seu potencial para o mal, também contém o que é necessário para o bem mais elevado: a santidade. Eis a razão pela qual a discussão sobre a sombra sempre leva a um paradoxo. (SANFORD, 2007, p.102-103)

A oposição entre o bem e o mal presente em nós cria uma tensão onde ou aceitamos um e negamos o outro ou vice-versa. O movimento enantiodrômico é incessante, é a oscilação entre os opostos, um movimento cheio de energia que certamente irá nos atrair sempre até que passemos a não mais pensá-los como opostos, mas como energia pura onde repousa o conhecimento.

O ser humano vive na oscilação entre os opostos e inconscientemente vive a vida condicionado por um sistema que não favorece o autoconhecimento. O reconhecimento e compreensão dos potenciais dos opostos e sua carga energética é caminho natural do autoconhecimento que inevitavelmente levará à totalidade.

A qualidade da energia é comentada por Jung:

A bem dizer, a energia em si não é boa nem má, nem útil nem prejudicial, mas neutra, posto que tudo depende da forma como a energia é aplicada. A forma é que da qualidade à energia”. (JUNG, 1980, p.43).

Uma possível solução para os conflitos é o reconhecimento do potencial sombrio latente em cada de nós, pois assim poderíamos ver as ações humanas como espelhos. Infelizmente não somos educados a nos olhar e por fim acabamos projetando, reprimindo nosso lado sombrio e nos iludindo, assumindo uma postura de benfeitores enquanto escondemos nossos monstros embaixo do tapete.

A lendária luta entre o bem e o mal se mantém em nossa era e cada um assume o lado que lhe parece mais satisfatório, no entanto ambos esquecem-se, ou desconhecem o fato de que somente contemplando em si os opostos é que se pode ser em totalidade. Jung deixa isso bem claro: “só posso dominar esta polaridade na medida em que me libertar dela pela contemplação de ambos os opostos e, assim, atingir a posição do meio. Somente nesta posição não estarei mais submetido aos opostos.” (JUNG, 1993, p.189).

De qualquer modo, o inconsciente é abundante. Manifesta-se pelo processo de atração e relativo ao observador, ou seja é de caráter psicóide e movimenta-se entre quaisquer estados, assim como os elétrons que ora são partículas, ora adquirem características de onda. Tem inegavelmente um sentido teleológico, um direcionamento objetivo, um sentido de vida e existência e ainda contempla e promove as diversas possíveis realidades do ser. Contém todas as faces possíveis e a todo instante nos oferece condições de aprendizado sobre nós mesmos e sobre o mundo. Ao desnudar-se dos limites que o cerca, o ser humano poderá estabelecer a conexão com esta infinita realidade, mesmo estando limitado a tempo e espaço, pois saberá considerar as potencialidades das polaridades e não se cerceará com o pré-estabelecido. Nesse estágio de consciência não se considerará um deus, pois se mantém sempre e a todo momento em estado de aprendizado, com respeito e sem julgamentos. Descobrirá a necessidade de servir, de ajudar, de contribuir com o mundo, como num ato de gratidão a todo conhecimento que pode alcançar.

Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza. (JUNG, 1980, p.24)

O movimento paradoxal que pendula entre os opostos, notadamente inconsciente para a grande maioria das pessoas, é o alimento para a criatividade e fornece abundantemente tudo o que precisamos para o amadurecimento do ego, para o processo de individuação e para o estado de servir.

CLIQUE AQUI E CONHEÇA NOSSOS CURSOS!!!!

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA